Infância
Amaram-me na infância com uma voz chegada de outras coisas, pois não sabiam das minhas atitudes e eu trazia comigo uma tristeza encarada como uma montanha abaladora. Minha poesia se multiplicava num canto de urgência e ninguém sabia das aventuras que eu perseguia: sonho, assim, por um vale profundo, consumindo-me sem razão, lado a lado... E misturaram um sabor amargo aos meus versos e os meus sentidos fizeram-se desatados como sandálias na companhia de terras poeirentas. Aquele era meu caminho, entre estradas batidas e fatigadas, com rostos que imploravam, e a fisionomia de todos era como a fome.
Argila
Em duas partes a vida se divide e em duas artes o imponderável do corpo se revela. Pela primeira arte o rito do amor é chamas pela segunda o mito da paixão é dádiva. E a dor de não amar o amor é devaneio torpe porque o prazer inflama a dor de não doar o corpo ao precipício. E tudo que tu dizes o barro dos teus olhos o brilho do teu rosto o sal dos teus dedos de marfim e tédio tudo é impasse pois tudo está exposto à liturgia da divisão das partes.
Mistério
Não sei por que destino vago ou se vegeto. Minha vida é qual um livro aberto que atravesso a nado. Minha solidão tem bases de concreto e as minhas ânsias claras intenções. Com as lições da dor eu teço uma canção ao vento e reinvento a vida. A morte é um vendaval e em tudo o cosmos é uma interrogação. Meu corpo a fuga. Meu prazer o medo. E a minha dúvida uma alucinação. Se vago ou se vegeto, escrevo: Minha vida é qual um livro aberto.
Magia
Estrangulo-me nas mãos da primavera. Dilacero-me na dor das sombras que ensangüento. Sou a ternura que se enclausurou na angústia das pedras. Tenho as mãos no mundo e os olhos seguros nas mãos. Vejo-me que sou carne e unha quando me enveneno no vinho. Preciso-me de sentimentos raros e impuros nos quais a rosa geométrica do ácido seja um bosquejo de sonhos. Quero trafegar na magia negra do mundo e me purificar na leveza da vida não passada a limpo.
Casulo
Te amo sobretudo os lábios e a resina viscosa dos teus seios, pois a vulva dos teus olhos enlaça a sedução invisível dos meus pelos, onde começo a viver e me embaraço, porque me mato de amor quando te vejo.
Corpo
Essa voragem oblíqua do tempo é o teu corpo. Essa vertigem convexa do sol são os teus braços. Eis os meus musgos alados as espadas e a arte madura dos teus dentes. E para sempre os teus olhos. Mais do que nunca os meus passos palmilhando o casulo secreto do teu colo.
Tela
Olhos, olhos de Buñuel na tela dos meus braços. Tetos, tetos de lã no meu pescoço. Punhos, punhos de Deus cravado nos meus ombros. Línguas, línguas de lonesco, uma canção ao vento.
Sombra
Se me contento com tudo o que não tenho: uma sombra, uma concha, uma praia em desalinho, eu não terei o corpo da mulher que sonho nem os lábios da lua e o sol entre os meus braços. Se me afundo estou só e tudo o mais suponho: um jeito de partir ou de ficar calado ou a ânsia de viver saltimbanco e feliz entre as cores do mundo e os caminhos de volta para casa.
Esboço
Na tessitura do caos me reinvento, pois o modelo da infância é uma faca e a liberdade do corpo é uma rosa, ungida de paixão e de esperança. O que me dilacera é a certeza de que os deuses maduros são o nada, pois a liturgia do fogo nas aldravas é o meu desejo soprando contra a porta. A solidão do menino na parede, a vela acesa e a mira da espada, o rosto branco do morto em desalinho, os meus cavalos alados na mansarda.
Enigma
O tempo-enigma é o que enclausurou-se no fundo da memória e no sol está gravado. O tempo-eternidade é o que fincou-se no arco dos meus olhos um pouco fatigados. Não posso ver o tempo pois tempo é inespaço e o espaço que sinto é sempre o tempo. Espaço intemporal tempo inespaço estão plantados entre os elementos: O tempo é fogo. O espaço é o oceano. O tempo-espaço é calmaria e vento.
Crônica
Fortaleza de noite: eis todo um argumento para viver a vida plena de sentimento. Deslizo pelas ruas sorvendo antiga brisa. No rio do asfalto a noite se eterniza. Fortaleza tem corpo e atração fatal que sangra nossos olhos com lâmina de punhal. Sou todo fortaleza, penumbra e nostalgia. Existo enquanto sonho sua geografia. Em noites de insônia Fortaleza é assim: é casa do espírito, é princípio e é fim.
Formas
A lua e as estrelas, o sol e os alabastros, as cicatrizes de Deus e as mulheres nuas são formas puras do amor que reconheço, são como cactos que me ferem os olhos na distância, tais os mistérios densos, as perdas preciosas, a dor de não viver a vida presa na garganta.
Ânsia
Os sentidos da vida que me chegam. Os sentidos da vida no momento. Porque no centro da alma há um castelo no qual escuto as confissões do vento. E bem no fundo da alma há uma tela muito mais bela ou igual à minha ânsia, porem a ânsia que sinto é um conflito muito maior que a nave da existência.
Romance
A casa onde nasci – que coisa triste! – hoje não mais existe, pois o meu avô (quem é?) e a minha avó (não posso descrever) fizeram um pacto de horror e ele ao falecer lançou sobre a família a sua maldição. E a minha avó, então, – e pelo resto da vida – só fez o que queria: vendeu a preço de tostão o rebanho de gado e a mobília e as terras do sem fim e a tradição. A minha avó plantou a solidão nas fendas do engenho, queimou os baixios de cana e com empenho rendeu-se alucinada aos encantos de São Sebastião.
Memória
Quando o meu avô, José, era um tufão dos deuses que na alma se escondia, a minha mãe Maria Eliete de Macedo plantou uma rosa entre os dedos no socavão do brejo. Lembro-me como se fosse ontem que as opalinas do sonho se moviam sóbrias: a emoção num canto da dispensa e o coração a balir como um cordeiro. Fizeram-se fogos de amargura os dias e eu previ então que sobrariam uns restos de ausência e uma dor maior que o por-do-sol nas margens do Salgado. Meu pai morreu de amor e uma nuvem densa e a minha mãe partiu sozinha levada pelos ventos. Ficou-me essa tensão maior, essa alegria breve. E a rosa do amor lançada sobre a neve se fez em mim a rosa do torpor. O meu avô, Antônio; a minha avó, Maria; e a outra avó, também, Maria das Mercês, quiseram que o clarão da arte de escrever fosse matando aos poucos um membro da família.
Escudo
Deus mudou de residência quando eu o procurei no meu corpo. Eu o quis novamente no cérebro e ele já se havia plantado na alma. Ele tinha sossegado o meu busto. Ele fazia escrituras nos dedos e acariciava os meus olhos que viviam completamente tontos de enganos. As minhas miragens morriam quando ele chegou muito perto e me disse: a luz é a que fica gravada na memória, e o sol é o que nasce brilhando a cada dia, pois a tua honra e a tua lâmina, pois a tua glória e o teu escudo são essas rugas de paz e essas dálias brancas e essas tardes mágicas e essas plantas nobres que se deixam cair na correnteza. E Deus já se havia chegado por entre os fios do sonho e se havia anunciado leve como as espumas e os cristais de rocha, mas ainda não se havia desnudo, porque as marcas ficam na alma, porque o vórtice e as vértebras às vezes me levam para a morte. Mas a luz de Deus chegou para ficar dançando no silêncio e o silêncio para ficar gravado nas palavras e as palavras para serem faladas para o próximo, porque no próximo o instante, porque no próximo o quadrante e as sarças de fogo da espera. O amor não se compraz no pranto. A alma é como a música do bosque. Porque maduro e belo é o encanto dos que se vão serenos pela vida. E Deus mudou de residência na mente. E ficou comigo na frente do espelho. Deus e suas vestes toscas de cambraia. A carregar nos braços minha sombra e a carregar a nuvem dos meus passos. A me vestir de linho na varanda. A me jogar confete no espírito. A me fazer escravo do seu jogo. A me dizer que o mundo é uma festa quando se tem a paz e a dor é branda. Quando se vive sozinho no deserto buscando o amor / sentindo a esperança.
Arthur Eduardo Benevides
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