Se me perguntassem porque a literatura existe, eu diria que a vida não faria o menor sentido sem a sua presença, isto é, a literatura seria para mim uma existência pressuposta a partir da qual se levantaria uma hipótese para justificar a permanência do cotidiano.
A verbalização dos sentidos, através da manifestação da escrita, não podemos esquecer, é o fundamento de toda a memória história que acumulamos, a qual, por sua vez, é a própria expressão do conhecimento que nos leva a pensar e a intuir as nossas emoções, devaneios, crenças, habilidades e experiências.
É claro que a literatura é uma forma de produção e de maturação cultural e artística, paralelamente às artes visuais e auditivas e a outros experimentos humanos que podermos selecionar, mas é indiscutível também que ela é a arte e a técnica que nos dão a noção de todas essas expressões da cultura, sendo a literatura, ela própria, a única forma de manifestação artística capaz de falar de si mesma e de retratar a sua aparição no mundo, informando-nos igualmente acerca das conquistas estéticas e do percurso criativo que vai arquitetando.
Não é da história ou de ciências correlatas que intento falar nesta resenha desataviada. Refiro-me à arte literária no seu sentido mais puro. Aquela que edificou as lendas e as fábulas, a que serviu de suporte à ideologia das religiões, a que se revelou através da poesia e do romance, a que forjou o mapa da desleitura através da terapia da psicanálise.
Vejam: eu estou afirmando que a leitura ajuda a construir o labirinto da literatura e a teia das suas relações com o intelecto. Todo grande leitor é, em essência, um escritor às avessas, assim como todo grande escritor é um leitor voraz e indisciplinado. O sonho também faz parte do universo literário, principalmente porque é uma forma de desleitura muito cativante, ligada à arqueologia pessoal e individual e que tem feito a fortuna de muitos escritores.
Na literatura o que menos conta é a realidade. Ela é um dado. Um ponto de partida. Reporto-me, é claro, à realidade coletiva, que apenas se torna monumental quando transfigurada pelo poder da metáfora, que é a arma primeira e a mais potente de que pode dispor um escritor de talento. Certos contadores de causos ou de estórias que às vezes muito nos encantam, inesperadamente podem não ser tidos como literatos, se lhes faltam a intuição e o engenho e a capacidade de arrancar dos seus personagens a desventura humana ou os tropeços existenciais que os atormentam.
Nesta exposição um ponto positivo também para o realismo fantástico e para os devaneios imaginativos. Parábolas, mensagens e sabedorias milenares remarcando a força do destino, ultrapassando o suporte plástico da realidade e os arquétipos humanos e o seu duplo, são enunciados do maravilhoso com os quais a literatura igualmente costuma se armar, almejando alcançar o seu desiderato.
Uma realidade, entretanto, interessa de perto à anatomia da literatura e com ela muitos escritores têm granjeado prestígio e simpatia por parte dos leitores. A referência aqui é para a expressão pessoal, reveladora da condição humana, que certos escritores ousaram colocar no papel, expondo de forma aberta os percalços da sua navegação interior e da sua verdade, simbolizando assim a grande pulsação da dor individual e coletiva que lhes toca a sensibilidade, isto através de recursos estilísticos e de metáforas alegorizantes.
Esse tipo de literatura é o que se coloca mais próximo do real, porque expõe uma forma de dor que somente é possível em face do conflito e da alteridade. Não se trata de uma literatura intimista, como pensam alguns, mas de uma forma de literatura que no geral tem ajudado a decifrar certos contextos históricos ou a aventura humana como um todo.
A montanha mágica da literatura deste século, de forma bastante insistente e proveitosa, tem se louvado nessa modalidade de literatura que se encontra aberta, inclusive, para o fluxo da consciência e do monólogo interior. Trata-se de uma literatura que costuma ferir o gosto do leitor e do crítico, exatamente porque penetra o núcleo daquela reserva intimista que nem sempre estamos dispostos a partilhar com ninguém e sequer a revelar a natureza das suas partituras.
Não ignoro que a emoção e o espanto, que o sentimento, o lazer, as relações humanas e a utilidade, nesta última incluindo-se a linguagem do corpo e do prazer, não sejam um leit-motiv da criação literária muito proveitoso. Pelo contrário, esses elementos eu os reconheço como parte importante do universo que interessa aos escaninhos da literatura, enquanto arte literária na sua dimensão mais profunda, cuja definição, do ponto de vista rigorosamente material, considero algo difícil de ser alcançado. A literatura é o tudo e o nada de cada escritor em particular e não existe nada que não possa ser matéria ou objeto da literatura.
Mas o ponto crítico da literatura não é seu conteúdo. As formas de expressão literária e a assimilação da linguagem, os recursos da língua e, fundamentalmente, os inumeráveis achados da estilística e da pesquisa estética, quando não apropriados com uma boa dose de talento, poderão levar qualquer grande conteúdo literário a uma ruína muito desastrosa.
Vejam que eu não fui muito exigente com o conteúdo gramatical, de propósito deixado de lado porque é justamente aquilo que se pode aprender abrindo livros didáticos ou compêndios. A gramática não ensina ninguém a escrever, mas é um dado a posteriori bastante relevante. Não é uma premissa, pois o ponto de partida é a intuição, assim como a formação virtual de todo grande escritor é uma experiência com o imaginário e com a modelagem dos fantasmas que povoam a nossa fantasia e os inúmeros recortes da lembrança.
As gramáticas precisam ser abertas porque escrever de forma correta e elegante é uma obrigação, mas as regras que ela nos ensina não se prestam senão para formatar um escritor verboso, que compõe no geral grande parte da miséria de qualquer contexto literário. Se requer de um escritor que ele detenha os códigos da língua e do vocabulário como se fossem pontos de partida para um vôo mais longo e não como um limite à aventura literária que empreende.
Não existe nenhum autêntico escritor que não seja um crítico de si mesmo e do mundo que o circunda de maneira sempre provocante, assim como não é possível uma estatura de crítico ou de tradutor que não seja um leitor muito experiente. Sem o diálogo com os seus contemporâneos e com os grandes escritores do passado nenhum empreendedor de textos literários poderá aspirar a ser reconhecido como literato. Somos, enquanto escritores, a soma da nossa experiência com a palavra, o dialogo que mantemos com os escritores que nos precederam e, fundamentalmente, uma realidade existencial que não pode estar dissociada de um permanente processo criativo. Se somos capazes de sobreviver sem esses componentes; se em nós, escritores, uma ânsia de criar não houver sido instaurada e se ela não nos perturba durante toda a existência, parece que não temos compromisso com o doloroso e sagrado mistério da escrita e que não somos, em essência, um escritor no sentido mais genuíno do termo.
Não me interessam os gêneros literários. Muito menos as classificações e as teorias que se associam com o ensino da literatura nas Universidades. O desafio que me intriga é o sortilégio do texto e a ambiguidade que preside ao ritual das suas possíveis leituras, pois que em tudo isso reside a essência do humano e os fundamentos da durabilidade ou não da escritura literária.
Um pressuposto, no entanto, não pode ser afastado da discussão em que me empenho, porque sem ele a literatura se tornaria excessivamente formal e enfadonha, ainda que portadora de uma ambientação material e conteudís-tica de excelente qualidade. A estética é esse componente sutil e refinado que julgo indispensável em toda arte literária que se preza. É o refinamento estético o objetivo último a que poderia aspirar um escritor, pois é ele que garante a sobrevida do texto literário. E é nesse sentido que a arte literária é uma tentação que sempre nos intriga e assusta.
Os escritores, indistintamente, escrevem para o gosto da mídia ou para a glória. Os que pagam tributo ao mercado capitulam diante das suas camisas de força. Os que escrevem para ficar não podem assumir compromissos senão com a verdade, pois a literatura que faz concessões à indústria cultural e ao mercado, além de falsificar os fundamentos da ética e da estética, não merece o respeito da crítica, comprometendo ademais a sua recepção por parte dos leitores.
É por isso que as vanguardas, tão necessárias à sobrevivência e à durabilidade da literatura, são extremamente perigosas para a maioria dos que se abalançam com as suas propostas. É que existe o perigo iminente de tropeços nas suas armadilhas, da mesma forma que certos escritores se perdem por se apegarem demasiadamente à tradição. O soneto, por exemplo, é uma forma clássica, de metrificação muito rigorosa, que poucos poetas sabem medir ou contar com justa precisão. Não é um mal que continue a ser tentado por alguns poetas estreantes, mas é um risco muito grande a flutuação por sua divisão silábica e pelas prisões formais que esse tipo de poema oferece aos que se aventuram pela engenharia da sua construção. Um poeta autêntico deve ser prisioneiro apenas do seu ritmo pessoal, da sua pulsação estilística e das conquistas estéticas do seu tempo, ainda que esse ritmo, essa pulsação e essas conquistas estéticas venham a se expressar por meio de uma forma literária mais ou menos fixa. Penso, no entanto, que a modernidade oferece muito mais recursos formais e de técnica literária aos escritores do que toda a tradição literária dos séculos precedentes.
Mudaram, portanto, as formas e as técnicas de apreensão da ambiência literária, assim como mudou a latitude que informa todo o seu conteúdo. A partição dos gêneros literários, a exigência do enredo como elemento indispensável de uma narrativa, a metrificação e a rima como requisitos do poema - são características literárias que há muito vêm perdendo terreno. A pós-modernidade é um território fascinante demais para ser posto à margem pelos escritores. A literatura, de uma maneira ou de outra, precisa urgentemente assumir seu lugar no discurso do caos, pois já é tenso e complexo o espaço cultural a ser recuperado.
Arthur Eduardo Benevides
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