Um filme de Arte. Para todos, embora para entendê-lo, sensibilidade é fundamental.
Compreendê-lo em profundidade exige um mínimo de conhecimento cultural.Parafraseando Bressane, ao citar um de seus filósofos preferidos, Filme de Amor nos encharca de Beleza. Como se fossemos, nós, espectadores, convidados a embarcar numa grande viagem emocional com ritmo, cor e luz própria. Neste mais novo filme de Júlio Bressane,tudo persegue e/ou revela a Beleza. Os textos, entrelaçados pela sensibilidade acurada do cineasta, são de uma profundidade quase metafísica.E têm na ousada fala de uma das atrizes seu momento mais contundente: "É o meu pensar sobre o prazer que me torna diferente de uma mulher vulgar".
A história mostra três amigos. Como fuga da rotina estressante e medíocre, escolhem inusitado programa para o fim de semana: encontram-se num velho sobrado do centro carioca. Tomados pela embriaguez, ávidos por combinar amor e sexo, o desejo da plenitude orgástica, a busca inquietante pela beleza, o trio formado por um homem e duas mulheres, compõe o belo mosaico fotográfico de Bressane e Wálter Carvalho e representa com seu arcabouço emocional o mito das Três Graças.
As Três Graças são o Amor, a Beleza e o Prazer, a trindade simbolizada por Vênus, a Deusa do Amor. Pois é este mito transformado em fábula popular que o cineasta Júlio Bressane transpôs para a tela ao criar o antológico FILME DE AMOR, grande vencedor da 36a edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em novembro último.
Confesso: já saí de Fortaleza interessada em conhecer o filme. Pelas discussões suscitadas quando de sua exibição em Cannes e Veneza, por ser Bressane cineasta dos mais respeitados pela crítica especializada, merecidamente festejado no exterior e do qual conhecemos tão pouco, e, sobretudo, pela modéstia do diretor ao dizer que Filme de Amor " é um pequeno filme sobre um grande tema".
Aliás, quando vi O MANDARIM, de 95, encantei-me com o olhar sensível e completamente singular de Bressane. Capaz de escolher como ninguém as músicas para emoldurar sua Sétima Arte. Que sabiamente insiste em ver sua obra interpretada por um ator do quilate de Fernando Eiras. Que há décadas faz filmes impactantes porque é sempre novo em sua forma de olhar e sentir o belo. E olha e sente sem arestas, sem preconceitos, sempre buscando encontrar novas visões para velhos temas, seja através das grandes coisas, seja pelas coisas mais banais. É ele mesmo quem diz: "Sobretudo na minha vida, vi gente tola surpreendente".
E Bressane, revelador nas conversas e na criação cinematográfica de invejável bagagem cultural, surpreende sempre. FILME DE AMOR é uma refinada pérola encravada na história da cinematografia mundial. É um grande filme sobre um apaixonante tema.
Além de "Melhor Filme" do Festival de Brasília, FILME DE AMOR venceu também como Melhor Fotografia – a cargo do mestre Walter Carvalho – e Melhor Trilha Sonora – de Guilherme Vaz. Candangos super merecidos!!! Com os quais fiquei muito feliz.Alegria maior por ver o resultado coroando meu encantamento completo com a obra do cineasta pelo qual fui cativada logo na primeira criação a que assisti. Soberbo. Outros concorrentes em Brasília mereceram aplausos mais calorosos. Mas eu fiz força para acreditar tratar-se apenas de reação da média do pensamento nacional, infelizmente ainda não instruída na medida necessária. Por isso ainda a aplaudir tanta coisa cuja lixeira seria destino mais apropriado. Enfim, venceu o mais belo, o mais apaixonadamente feito, aquele filme sobre o qual o diretor fala com tanta eloqüência e emoção que nos convida a gostar de FILME DE AMOR antes mesmo de vê-lo. Ou gostar mais ainda após conversar com ele.
FILME DE AMOR prosseguiu a carreira polêmica já levantada em alguns festivais fora do país. Em Brasília também a platéia vaiou e aplaudiu o filme. Eu, particularmente, fiquei encantada. Desde os ambientes escolhidos por Bressane, as seqüências na praia, o velho sobrado abandonado no centro do Rio, a inspiração no artista Balthus, os planos, a direção de arte e a exuberante fotografia de Wálter Carvalho, passando do preto e branco ao colorido com invejável maestria,o filme nos faz refletir/repensar sobre a tríade Beleza-Amor-Prazer. E pensar não é decidamente o exercício preferido da maioria dos brasileiros. Como disse o próprio Bressane (em entrevista concedida após o debate pós-filme), "O cidadão brasileiro já vive tão asfixiado com essa necessidade de arranjar emprego e manter trabalho que assistir aos filmes com ‘formato’ mais popular lhe resta às vezes como única saída de um cotidiano massacrante e tantas vezes sem sentido. Infelizmente, venceu a civilização do trabalho", diz o diretor.
Não por acaso, o filme venceu ainda pela Trilha Sonora. Guilherme Vaz ( vencedor do Candango em 69 com O Anjo Nasceu) fez das músicas escolhidas para emoldurar o filme um espetáculo à parte. Especialmente quando a telona é encharcada pela beleza da enseada de Botafogo ao som de Lamartine Babo... A impressão é de estarmos diante de um quadro sonoro de algum grande pintor fascinado pela Cidade Maravilhosa.
Chegar perto de Bressane foi mais uma feliz oportunidade concedida pela profissão. A inteligência generosa, o refinamento das atitudes, o debulhar natural do conhecimento profundo sobre tantos fazeres artísticos, a prestimosidade em conversar, tudo nele nos faz crer estarmos diante de um dos últimos gênios da raça. E o melhor: Tarcísio Vidigal, tarimbado produtor, pela primeira vez trabalhando com Bressane, ao lado de Lúcia Fares, promete fazer estréia nacional do filme neste semestre. Aguardamos pois, ansiosos por rever obra tão definitiva. Você, que ainda não viu, fique atento às estréias para não perder esta obra-prima da cinematografia mundial.
Júlio Bressane é um dos mais belos e instigantes capítulos da História do Cinema Brasileiro. A ele, nossos aplausos entusiastas e comovidos.
Arthur Eduardo Benevides
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