:: Publicações - Revista Oboé

:: Beatriz Alcântara

Iracema de José de Alencar

Levar a efeito a apresentação de uma obra-prima da Literatura brasileira é missão por demais instigante. Há o desafio de ter que ler muito do que foi escrito a respeito da ilustre obra e enquanto se forma opinião destas leituras, delas não deve haver muita aproximação para não correr o risco da mesmice, mencionar citações sempre repetidas à exaustão ou até mesmo ficar presa a julgamentos de uma época, de um tempo e um enfoque tão diferentes do nosso.

Li na juventude escolar e reli várias vezes, para esta apresentação, o romance Iracema de José de Alencar.

Alguém me vendo ler um livro inusitado para a minha idade, perguntou a razão e ao tomar conhecimento, balançou a cabeça e sentenciou – que temeridade falar de Iracema quando existem tantos "iracemólogos" no Ceará e pelo Brasil afora. Calei, minha leitura não almejava tornar-me uma "expert" no tema.

Cumpro eu uma convocação dos amigos Virgílio Maia e Socorro Torquato (Côca).

Quando o tempo não me é escasso e o pedido é fraternal não fujo do convite a um momento literário.

Aqui me encontro frente ao desafio de apresentar uma das obras de maior referência nacional.

O romance Iracema: lenda do Ceará de José de Alencar, um ícone do Brasil, está esta noite sendo lançado em edição fac-similada de sua primeira versão datada de 1865, e publicada por Viana & Filhos do Rio de Janeiro, a partir de um exemplar pertencente à biblioteca particular do Sr. José Mindlin, num esforço conjunto da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, da Biblioteca O Curumim sem Nome, da Oficina do Livro Rubens Borba de Morais, da Editora Giordanus e do Centro Cultural Oboé.

Antecede o fac-símile desta versão da primeira edição, um caderno contendo uma apresentação de Cláudio Giordano, o estudo "Iracema: em edição fac-similar" de Sânzio de Azevedo, o artigo "Iracema por José de Alencar" de Machado de Assis publicado no Diário do Rio de Janeiro a 23 de janeiro de 1866, acrescido pelo soneto "Iracema Guardiã: uma escultura de Zenon Barreto" de Virgílio Maia, poeta de longo percurso e o grande articulador, responsável por esta publicação.

O caderno antecessor é enriquecido pelas ilustrações de Côca Torquato alusivas, como convém, ao aspecto indianista da obra de José de Alencar aqui referida.

Quando o Romantismo irrompeu no Brasil na década de 30 do século dezenove, ele apresentava um nacionalismo exacerbado pela Independência do país em 1822.

A produção literária romântica brasileira ainda que se orientando pelos mesmos postulados estéticos da escola romântica européia, adquiriu contornos extremamente próprios e renovadores, tendo a eles se adicionado o projeto de construção de uma identidade nacional.

A busca de uma nova forma de expressão lingüística, os temas ligados à exuberância da natureza tropical, as questões político-sociais, o indianismo e o nacionalismo foram os traços marcantes desta geração literária no Brasil.

Alencar, ao denominar seu romance indianista, Iracema: lenda do Ceará estava não só propondo o resgate da lenda - o universo idílico e impreciso da memória coletiva onde o ato da escrita ficcional pode ocorrer e inovar sem pejo de afrontar a veracidade histórica - bem como extrair do cerne deste gênero, a lenda, a intenção de alcançar a credibilidade factual.

A partir do romance-lenda e da invenção alencarina da palavra IRACEMA, um universo de possibilidades despontaram, ainda mesmo quando o autor tenha dirigido o seu nascedouro apontando nas notas à primeira edição:

Iracema – em guarany significa lábios de mel – de ira/mel e tembe/lábios. Tembe na composição altera-se em ceme.

Contudo, em 1929, o historiador de Literatura Afrânio Peixoto levantou a hipótese, na revista de número 89 da Academia Brasileira de Letras, de que a palavra IRACEMA pudesse ser anagrama de América.

Suposição passou a ser do agrado tanto de estudiosos quanto leigos, a ponto de hoje ser prioritariamente referida e quase ser relegada ao esquecimento a proposta de seu criador.

osso contemporâneo Chico Buarque de Holanda em uma homenagem crítica aos brasileiros malparados mundo afora globalizado, menciona na música "Iracema voou" de 1998, uma certa Iracema do Ceará, emigrante de seu anagrama América:

Iracema voou/ para a América/ leva roupa de lã/ e anda lépida/ vê um filme de quando em vez/ não domina o idioma inglês/ lava chão numa casa de chá./ Tem saído ao luar/ com um mímico/ ambiciona estudar/ canto lírico/ não dá mole pra polícia/ se puder, vai ficando por lá/ tem saudade do Ceará/ mas não muita/ uns dias, afoita/ me liga a cobrar;/ - É Iracema da América.

Para que não se perca o registro, uma vez que dele nos aproximamos, outro autor de música popular brasileira, Adoniran Barbosa, já havia composto o samba paulistano "Iracema" com uma breve participação junto aos "Demônios da Garoa", mas o enfoque acha-se por todo modo dissociado do tema nosso. Mantenha-se, todavia, o registro do uso disseminado do nome IRACEMA em terras tupiniquins.

O Romantismo indianista alencarino, em especial no romance Iracema, proporcionou pelo relato da lenda uma autonomia cultural brasileira, fortemente marcada por uma civilização indígena anterior.

Por meio de uma narrativa fulgurante, o escritor propiciou o nascedouro de uma grande inovação, uma escrita de feição renovada pelo contato da língua portuguesa com as tradições, os ritos e os falares das nações indígenas, a fauna e a flora nativas, a terra de areias nuas, as serras que azulam no horizonte, as suaves brisas do entardecer e o mar bravio do nordeste brasileiro.

"Iracema é, em verdade, um grito da terra. Apelo da terra nas suas exigências ecológicas querendo completar-se com o homem fator-geográfico", expressão de Raimundo Girão em Botânica Cearense na Obra de Alencar e Caminhos de Iracema.

O fato renovador gerado pelos aspectos lingüísticos alencarinos foi além da introdução de um bom número de palavras da Língua Geral Tupi-Guarani ou do registro da terra de matas, serranias, vales agrestes e praias selvagens.

Alencar conseguiu transpor e dar sustentação à aparente inocência da expressão oral indígena para a língua portuguesa.

O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno.
A virgem dos olhos azuis e dos cabelos de sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel de açucena.
(palavras de Iracema ao amado Martim, nos campos da nação dos Tabajaras – capítulo VIII)

Câmara Cascudo, um nordestino sempre reverenciado pela expressão aguda de sentir os fenômenos culturais da região, referiu-se deste modo ao comentar a identificação nacional com a obra e os personagens de Alencar: "... muito dessa irresistível atração foi o vocabulário de Alencar, o brilho, a musicalidade verbal. A imagem inebriante e soberba para o seu tempo, as graças capitosas da minúcia, da precisão, da habilidade idiomática e mesmo sua sintaxe, as concessões ao sabor local, os neologismos, brasileirismos, enfim a liberdade ousada, aberta, corajosa, ostensiva, em empregar uma técnica que era eminentemente sua e que apaixonou o Brasil inteiro".

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba:
Verdes mares que brilhais como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros:
Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.
(parágrafo inicial do romance Iracema, que por revestir-se de imagens densamente líricas, Machado de Assis denominou-o de poema em prosa que no futuro, por certo, seria reconhecido como obra-prima)

A escrita normativa lusa adquiriu uma renovada feição pelo falar e sentir de uma nova gente, o povo brasileiro que na lenda de Iracema iniciava-se na miscigenação da índia de cabelos mais negros que a asa da graúna com o guerreiro branco que acedeu, por puro encanto aos filhos da terra - a virgem tabajara Iracema e o amigo guerreiro pytiguara Poty - a se tatuar Coatiabo.

A passagem que se segue claramente transparece a intenção do Autor:

Foi costume da raça, filha de Tupã, que o guerreiro trouxesse no corpo as cores de sua nação. Traçavam em princípio negras riscas sobre o corpo, à semelhança do pelo do coaty...
O estrangeiro tendo adotado a pátria da esposa e do amigo, devia passar por aquela cerimônia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de Tupã.
Poty se proveu dos objetos necessários... Iracema preparou as tintas.
O chefe, embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande nação pityguara. Depois pintou na fronte uma flecha...no braço um gavião...no pé esquerdo a raiz do coqueiro...no pé direito pintou uma asa...Iracema tomou a rama da pena e pintou uma folha com uma abelha...assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a doçura está no peito do mais valente guerreiro
...meu irmão é um grande guerreiro da nação pityguara; ele precisa de um nome na língua de sua nação
...Coatiabo! exclamou Iracema.
Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado...
A filha de Araken foi buscar à cabana as iguarias do festim e os vinhos de jenipapo e mandioca.
(Cap. XXIV)

Martim, o guerreiro branco que se deixou pintar por todo o corpo, Coatiabo, foi pela mão do romancista cearense integrando-se e rendendo-se, por inteiro, aos hábitos, ritos, costumes e mesmo à lírica expressão verbal indígena.

O romancista pretendeu evidenciar, por meio de uma narrativa vigorosa e idílica, com nativos e conquistadores brancos se revestindo sempre de gestos nobres e heróicos - um aspecto raramente encontrável na colonização de novas terras - o desejo do guerreiro de tez branca de não ser o outro, o estranho, e sim um outro, outro que tal os outros nativos.

Quando Martim quis se despedir de Iracema que o seguia com insistência no caminho de volta saindo da aldeia dos Tabajaras, assim se expressou:

Mais afunda a raiz da planta na terra, mais custa a arranca-la. Cada passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no coração de seu hóspede. (cap.XVI)

Ao estrangeiro, nada soava estranho na civilização destas nações indígenas de práticas coletivas – o plantio, a colheita e o preparo do milho, da mandioca e do algodão, atividades exclusivamente das mulheres; a caça, a pesca e os sonhos da jurema só aos homens permitidos.

Por todos os modos o guerreiro branco se queria reconhecer como um da terra, participava e se rendia ao bom uso da inteligência emocional indígena, como por exemplo, a fruição da hospitalidade do pagé Araken, pai de Iracema, na grande taba guerreira inimiga:

No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, estendeu Iracema a esteira de carnaúba, e sobre ela serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos (de caju e ananás) da última lua. O pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupã, que lhe enchi as arcas do peito; o estrangeiro respirava ar às golfadas para refrescar-lhe o sangue efervescente; a virgem destilava sua alma como o mel de um favo (cap.XII)

A rede é por certo a maior herança emocional brasileira advinda das nações indígenas. No colo da rede todos pensamentos se permitem ter origem, se aninham, se transmutam e se renovam. O mancebo branco a ela também se rendeu:

Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento (cap.XV).

Alencar transpôs para a ficção lendária de Iracema a permanência e o uso do mais maleável recipiente do corpo humano, a rede. Ela permeia o terreno da ternura onde a dor e o sofrimento se refazem pelo aconchego em repouso.

A noite, senhora do mistério escuro, na rede origina o entendimento do amor e a ilusão do sonho enquanto promove o descanso para ao novo dia entregar a alma por todo modo reparada.

A rede, universo do refúgio, está intimamente ligada à simbologia feminina da taça - gravidez e nascimento – afeita que também está à imagem de acolhimento e gestação do novo.

Que mais poderia estar integrado ao universo onírico do repouso no imaginário humano, do que este berço ancestral dos índios?

A alva rede que Iracema perfumara com a resina de beijoim guardava-lhe um sono calmo e doce. O cristão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmúrios da floresta. (cap.IV)

José de Alencar jamais caiu no antagonismo bons índios contra maus brancos, nem bons brancos contra maus índios, menos ainda a civilização contra o barbarismo. O enfoque sempre foi, desde os primórdios, o do nascimento de uma pátria, e este ponto de vista sempre se manteve mesmo quando dos embates bélicos, apresentados por ele como uma necessidade para a demarcação, estrutura, construção e fortalecimento de uma nova nação nos trópicos.

Iracema: lenda do Ceará é obra inexaurível, fértil como a terra e o imaginário do Brasil.

Cearensidade é uma designação que vem ganhando espaço e uso, notadamente em certos meios culturais, nesta década de início do terceiro milênio. Este termo teria por intento a identificação de conceitos peculiares ao Ceará.

O escritor José Martiniano de Alencar com seu romance indianista Iracema: lenda do Ceará oportunizou o testemunho do nascedouro do povo cearense, o registro da topografia, da fauna e da flora da região, como também nos apresentou os alimentos, os usos e os costumes nativos ancestrais.

Muitos e notáveis escritores cearenses louvaram com arte, conhecimento e sensibilidade a sua terra natal, porém poucos conseguiram expandir e notabilizar o registro da cearensidade como Alencar e sua mais notável obra, o romance Iracema: lenda do Ceará.

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