:: Publicações - Revista Oboé

:: Aurora Miranda Leão (teatro)

Louvando o que bem merece, deixo o que é ruim de lado...

"Se através da educação pudermos fazer entender que não precisamos de três tênis Nike, nem de dez camisas de grife, se sentarmos em torno da mesa em que comemos e consumimos e entrarmos num acordo de consertação, aí sim, podemos estabelecer uma sustentabilidade".

O momento mais marcante do dia 8 deste novembro que voa ao encontro do Natal fica por conta do ministro Gilberto Gil.

Na solenidade de entrega da Ordem do Mérito Cultural, a maior honraria do Governo, concedida há 12 anos quando das comemorações do Dia Nacional da Cultura, Gil precisou interromper sua fala porque a enorme platéia - composta sobretudo por artistas e intelectuais - gritava em uníssono: "Gil Fica ! Gil Fica !"

Afirmo sem medo de errar: o brado ouvido em Brasília é o mesmo escutado por artistas, produtores culturais e realizadores de todas as formas de Arte nos quatro cantos do país. Nós também queremos GIL porque, a partir de Gil, os brasileiros passaram a entender e a conhecer sua Cultura. Traduzindo: passaram a se reconhecer na enorme diversidade cultural chamada Brasil. E, ao se reconhecer como plural, o brasileiro passou a se entender melhor e a se querer bem. Daí a AMAR é um passo, grande, decisivo e certeiro.

Das mais felizes as referências respeitosas do Presidente Lula ao ministro, culminando com a afirmação: "Gilberto Gil não governa a cultura, ele cuida da cultura, pois se você tiver todo o dinheiro do mundo mas se não tiver humildade, sensibilidade para fazer as coisas florescerem, desabrocharem como um botão de rosa, o dinheiro não valerá de nada". Os aplausos devem ter ecoado no Planalto, como ecoaram forte no meu coração. Lula foi preciso, belo e contundente.

Nestes 4 anos de gerência da cultura, Gilberto Gil não só prosseguiu sendo o Artista Genial que é, amado e respeitado mundo afora, como alçou a Cultura a um patamar de influência política e cultural ao qual ela nunca antes houvera conquistado entre nós. Tornou clara a importância da economia da cultura, hoje respondendo por 5% do PIB nacional, o setor da economia que mais cresce em todo o mundo. Defendeu onde pôde um modelo de desenvolvimento menos economicista e mais humanista, no qual as dimensões culturais e ambientais sejam prioridade: "Nossas responsabilidades com o planeta são urgentes e comuns. Se encararmos esse problema, podemos estabelecer uma sustentabilidade. Temos que apostar na nossa criatividade. Os EUA, por exemplo, por anos não pesquisaram fontes alternativas de combustível e o Brasil, com muito menos condições, tomou a dianteira".

Orgulho-me profundamente de Gil e de seus feitos no Ministério, e outras vezes já tive a chance de compartilhar desta opinião com leitores e amigos. Passados quase 4 anos de Gil à frente deste Ministério, o qual ele, com Sabedoria, trabalho, articulação, sensibilidade, visão multifária e competência, muita competência, soube gerir como nenhum outro em função semelhante, não há outra acepção a proclamar senão a do acerto em se preservar Gil no lugar onde há 4 anos está com dedicação, seriedade e disposição juvenil.

A bandeira pela defesa de mais quatro anos para Gil não começou agora nem ontem, nem mesmo quando da vitória consagradora de Lula. Há tempos ecoam no país pedidos por Mais Gil ! Fica Gil ! Queremos Gil !

Comenta-se: a família de Gil já o quer longe do ministério, é hora de mais atenção à carreira... Este ano, ele completa 40 de profícua estrada artística, seja na música, no cinema, na sua alma permanentemente engajada aos sensores artísticos onde pulsa a alma do mundo.

Mas nós insistimos: Gil deve prosseguir ministro ! O Brasil precisa de Gil ! A Cultura Brasileira quer prosseguir em sua vertiginosa carreira rumo ao reconhecimento e à consagração, os Artistas unidos reconhecem os méritos incontestes de Gil e não há como negar: o contundente discurso do Presidente Lula na solenidade de entrega da OMC foi um verdadeiro discurso de aprovação e apoio à gestão Gilberto Gil. Ao louvar a emoção de Gil - "Acho muito gratificante ver um homem chorar... porque quando um cidadão se dispõe a soltar uma lágrima em público é porque ele está despojado daquela fortaleza que as pessoas querem que a gente tenha – mas não temos, pois somos seres humanos frágeis e reagimos de acordo com os acontecimentos", Lula reafirma sua enorme sintonia com Gil e prova aos descrentes de plantão o acerto de seu convite a Gil para integrar a equipe de Governo.

Por outro lado, o ministro foi de uma fidelidade exemplar ao amigo Presidente, não deixando de estar ao seu lado nem nos momentos de maior turbulência. Enfrentou crises, imprensa à cata de escândalos, problemas com cineastas, críticas improcedentes da classe teatral, reclamos da turma da Música, perguntas indiscretas, cascas-de-banana e até palavras destemperadas de velhos companheiros. Respondeu a tudo com a maior serenidade e delicadeza, sendo enfático quando foi necessário, sensível em todas as causas, ousado quando convinha, eloqüente sempre, digno como sói a um amigo; inteligente, educado e sereno como convém a um homem público."É preciso qualificar a crítica, a oposição e a dissidência. Fica parecendo que não foi feito nada, o que não é verdade. Fizemos o que foi possível e a crítica tem que partir do que foi feito para ser construtiva", disse certa vez.

Em maio, durante o II Fórum Nacional de Cultura e Cidadania Corporativa, foi claro com empresários: "O poder público está aí para estimular e subsidiar os realizadores e o setor privado. Falem com o Ministério da Cultura. Agora mesmo fechamos parceria com a construção civil para construirmos novas bibliotecas nos municípios com menos de 50 mil habitantes em todo o país. É isso, temos que unir o público e o privado no caminho do comum. Terceirizem, em vez de criar seus departamentos culturais, venham agir conosco, as idéias e possibilidades estão aí. Hoje só pode haver hegemonia se for compartilhada".

Nós todos, os que não somos cegos nem queremos ser mudos, sabemos muito bem o quão o Ministério da Cultura ganhou papel decisivo neste Governo, graças a desmedida vontade política de Gil e seus principais assessores - como o cineasta Orlando Senna, coordenando com pulso firme, decisões acertadas e inarredável objetivo de alçar o Cinema Brasileiro a uma posição de visibilidade nacional e internacional a prolífica Secretaria do Audiovisual; assim, desenvolveu projetos importantes como o DocTV, o Revelando os Brasis e o Olhar Brasil, para citar apenas alguns (nunca nosso Cinema teve tanta importância na economia da cultura como agora). E isso não foi num passe de mágica nem estendendo tapetes sem merecimento. Houve grandes momentos de embate e Gil soube prosseguir firme e forte no leme da Cultura: "Aumentar mercado hoje não é só fazer propaganda na TV, é investir em educação, saúde e cultura. Se as pessoas tiverem acesso, se tiverem mais cultura, mais e melhor escola, mais e melhor saúde, no futuro serão mais e melhores consumidores e, sobretudo, mais e melhores cidadãos. É isso que chamo de capitalismo".

Diante de tudo isso, se ainda assim alguém tiver dúvida da importância e do acerto que será a permanência de GIL no MinC, eu indico apenas: tentem ter para a autoridade política a mesma sensibilidade, o mesmo olhar e os mesmos ouvidos atentos sempre dedicados ao Artista. Porque a atuação de Gil no MinC é uma confirmação diária de tudo quanto sempre expressou em suas pérolas musicais, só não vê quem não quer. Afinal, como ele nos ensinou com o LUAR, "Uma vez que existe só para ser visto, se a gente não vê não há". Mais cristalino, impossível.

:: Autores

Arthur Eduardo Benevides
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