O Festival Guarnicê de Cinema - evento que torna São Luís a capital nacional do Cinema neste festeiro junho de cores e ritmos -, às vésperas de sua trigésima edição, ganhou um requinte todo especial ao abrir as portas do histórico Teatro Arthur Azevedo.
O Teatro é uma pequena jóia da arquitetura encravada no centro histórico da capital maranhense: reafirma o primado da Cultura sobre a descartável era midiática na qual empobrece a maioria. Tudo nele encanta: desde o lustre colossal às confortáveis cadeiras e os belos afrescos que ornam o palco e as elegantes frisas. Como se de repente fôssemos encaminhados aos belos templos dos grandes espetáculos de outrora, tão bem conservados onde o Mundo se diz Primeiro. Um luxo fazer parte daquela platéia em momento tão significativo para a Cultura brasileira.
Com a graciosa atriz Amélia Cristina Ferreira mais uma vez respondendo com capricho ao cerimonial, Euclides Moreira Neto deu às boas vindas! Ao seu lado, como não poderia de ser, uma representante do Boi Pirilampo, bela fantasia a convidar para as inesquecíveis festas da cultura tradicional maranhense que tanto bem fazem ao corpo e à alma. Porque este é um dos traços mais admiráveis do Guarnicê: valorizar e priorizar o rico acervo histórico-artístico-cultural do Maranhão. Não há nada que Euclides faça que não tenha profundamente arraigado o amor pela terra natal, o respeito pelas diversas manifestações da cultura tradicional, o abraço fraterno em todos quanto chegam para também aderir ao Guarnicê. E com tal propriedade isto é feito, que nós, convidados do evento, nos sentimos instintivamente um pouquinho maranhenses também. E o coração é tomado do maior orgulho por esta mistura de ritmos, cores, magia e beleza a perpassar toda a programação deste invejável Festival, cuja década terceira se antecipa grandiosa.
Com discurso objetivo e eloqüente, o Reitor Fernando Ramos mostrou profunda afinidade com a cultura maranhense, sensibilidade para a criação artística e autêntico engajamento com a atuação do Departamento de Arte & Cultura da UFMA. Armou a tenda e chamou para o Guarnicê – encontro para retomar, dar início, chamar para a festa – e saudou o Festival como o início das comemorações dos 40 anos da Universidade Federal do Maranhão – patrimônio educacional do país. Em seguida, o afinado coral da UFMA entoou pérolas de Tim Maia e Milton Nascimento, além de clássicos do repertório maranhense. Depois, Amélia convidou o Reitor a prestar a primeira Homenagem Especial do Festival – à atriz Rosamaria Murtinho.
Coube a esta jornalista, pega de surpresa por um convite do nobre Euclides, dizer as primeiras palavras... E, como diz o mestre argentino Fernando Birri, Quando a Emoção é grande, as palavras devem ser poucas. A emoção tomou conta de mim, venceu as tantas coisas boas e pertinentes a falar de Rosamaria – minha dileta amiga de tantos e tantos anos, simplesmente Rosinha, afinidade tão grande e intensa que parece nos ligar de outras vidas. Pra quem se alimenta do sonho, nada mais fácil do que imaginar-se em outras e outras gerações.
Emocionada e comovida, Rosamaria agradeceu a homenagem e se disse inteiramente feliz por receber do Nordeste a primeira homenagem a que faz jus no Cinema Nacional. Saudou o Reitor Fernando Ramos pelo apoio ao Festival e a relevância da presença na solenidade; parabenizou Euclides – a quem não cansa de cumprimentar pelo empenho na realização anual do Guarnicê – além de ressaltar suas raízes maranhenses, pois seu avô materno João Afonso Nascimento (jornalista, criador de moda e desenhista dos mais importantes de sua época) foi nascido em São Luís, parceiro e amigo de Artur e Álvares de Azevedo.
Um dos traços mais marcantes do Guarnicê são as diversificadas Mostras Paralelas que abrangem todo tipo de filmes e também as competitivas oficiais, englobando desde videoclips a comerciais de um minuto e telereportagens. A saber, as Mostras de Filme Super 8 (pela manhã no Teatro Alcione Nazareth); Refestança (só filmes maranhenses); Olhar Indígena (Reitoria do Palácio Cristo Rei); Petrobrás; Tendência de Filme (auditório do Sesc); Mostra Prova dos Nove; Tendência de Vídeo; Olhar Amazonense; Cinema Espanhol; CTAV; Saudade Não Tem Idade; Olhar Maranhense; e Kinoforum, além das mostras itinerantes - enfim, filmes para todos os gostos, em diversos lugares, em horários pra atender a todas as demandas. No Guarnicê, só não vê filme quem não quer.
A sessão Cinema na Praça, este ano realizada na Praia Grande, defronte ao Centro Cultural Odylo Costa Filho, foi uma das mais prestigiadas. As exibições começavam às 19h e estavam sempre lotadas. Bom demais chegar para as exibições competitivas no Odylo e encontrar o telão armado no Centro Histórico cercado de gente para conferir produções nacionais.
Após as mostras competitivas - de tarde, os vídeos e à noite os filmes -, sempre depois das 22:30h, a noite virava festa e uma atração folclórica chegava para as boas-vindas aos participantes (mais pontos para a curadoria de Euclides Moreira Neto, que pensa em todos os detalhes para agradar a seus convidados e para destacar a intensa e ótima produção cultural dos habitantes de São Luís e cidades vizinhas).
Do Tambor de Crioula de Inaldo, na noite de abertura na Morada Histórica, ao Auto do Bumba-Meu-Boi pela Cia Cazumbá de Teatro e Dança no encerramento solene no magnífico Teatro Arthur Azevedo, tudo foi um convite irrecusável para estar na 30a edição do Guarnicê, grifada para junho de 2007. Teve Boi de todos os sotaques para não deixar ninguém parado: o Boi Encanto da Ilha (orquestra) agitou o Centro Cultural Odylo Costa, filho na noite de quarta; noite seguinte, o Boi Encanto da Ilha com seu sotaque de Orquestra atraiu olhares e chamou para a roda visitantes, como Rosamaria Murtinho, e nativos; o Cacuriá de Basson lotou o salão na quinta, seguindo-se festa brega onde o ator/realizador cearense Cássio Araújo fez bonito com sua voz de barítono e até Rosamaria Murtinho deu "canja" cantando algumas pérolas, como Ronda (Paulo Vanzollini), surpreendendo pela voz afinada e simpatia contagiante. O eletrizante Boi da Pindoba, com suas matracas afiadas, não deixou ninguém ficar parado e o cantor/compositor cearense Calé Alencar foi somar-se ao coro dos "matraqueiros" (onde já estava o super festeiro Antônio Leal e brilhava o entusiasmado Celso Brandão) enquanto Sueli Noel, Patrícia Baby, Alice Gonzaga, Sheilly Caleffi (atriz paranaense), Emanoel Freitas (FestCineBelém), Manuel Correa (MinC), Lula Gonzaga e José Vasconcelos (Rede Audiovisual Nordeste), Daniela Baranzini ("Zoom"), Maria Abdalla (Goiânia Mostra Curtas), Patrícia Baía, Zita Carvalhosa, Leona Cavalli, Edna Fuji (Quanta), Tarciana Portella, Liége Nardi (Gramado), Sandra e Alfredo Bertini (CinePE), Charles Melo (escritor maranhense), Dirceu Lustosa, Marcos Marins, Tibico Brasil, Verônica Guedes, Caó Hambúrguer, Bertrand Lira, Marcus Villar, Adriano Lima e muitos outros tentavam acompanhar o ritmo no pé e na alegria.
Mas São Luís em junho é um grande arraial a céu aberto e há festas folclóricas em toda parte. No badalado Centro Histórico, as apresentações se sucedem até as primeiras horas da matina e há sempre muita gente dançando, fotografando e conferindo atentamente os ritos e as belas fantasias. O requintado Boi de Nina Rodrigues é coisa de produção AO (Alto Orçamento) - fantasias e ritmo pra ninguém botar defeito. Que o digam Ana Maria Xavier e Maurício Lima, mais dois cearenses encantados com a magia do Boi...
Outros grupos também presentes na programação do Guarnicê: São João de Rosário (orquestra), Unidos Venceremos (zabumba), Unidos de Santa Fé (baixada). E uma dica especial pra quem quer mesmo entender sobre o Bumba-meu-Boi e seus vários formatos e matrizes é conversar com o Dr. Fernando Ramos, o Digníssimo Reitor da UFMA, figura das mais adoráveis de São Luís, misto de simplicidade, simpatia, cultura e inteligência, que fala com tanto orgulho e conhecimento de sua terra que deixa a gente com uma pontinha de inveja e vontade de saber muito e dançar mais. Nossa imensa gratidão ao professor Fernando Ramos pelo muito que nos ensinou e nos faz admirar seus conterrâneos.
Outra grande alegria deste ano foi conhecer de perto Vinícius de Oliveira, ator hoje saindo da adolescência mas descoberto por Walter Salles ainda menino, no aeroporto Santos Dumont... Coube a Vinícius as cenas de maior encantamento do vitorioso filme de WS: o ator aliou sua docilidade pessoal à maestria do magnânimo diretor e é grande responsável pela ternura tão pungente de Central do Brasil.
Ao ver Vinícius no palco do Teatro Arthur Azevedo, na noite final, convidado em bela hora para entregar alguns troféus, fiquei lembrando da glória de este menino ter sido conquistado para o mundo das Artes. Devemos mais esta a Walter Salles e seu generoso olhar para o Brasil.
Voltando ao Reitor, a participação dele na noite de encerramento foi tão singular como encantadora. Após receber o imponente Troféu São Luís, como justa homenagem conferida pelo júri de Vídeo à Universidade Federal do Maranhão pelos seus 40 anos - cujos festejos foram iniciados no Guarnicê -, e antes da apresentação dos Corais Colun Vox e São João, ele brindou à platéia com bela poesia de Martim D'Alvarez, poeta cearense criador de alguns dos mais belos versos já ofertadas ao povo de São Luís. Tão bela quanto à obra foi a interpretação emocionada do Dr. Fernando. Um luxo para poucos um Reitor com tamanha vocação artística !
Para nós, conterrâneos de D'Alvarez, ouvir o poema teve um gostinho especial pois o poeta cearense conseguiu traduzir o que todos sentimos ao estar em São Luís: uma paixão delicada e contagiante pelas belezas da Ilha do Amor, sintonia com suas ruas bucólicas e azulejos históricos, uma vontade de quedar-se à sua tranqüilidade e "piratear" para o resto do país sua hospitalidade e aconchego cultural intrínseco.
Aliás, a noite de encerramento teve intensa presença cearense: o homenageado foi o cineasta Rosemberg Cariri por seus trinta anos de estrada; o belo filme de seu filho Petrus - "Dos Restos e das Solidões" levou alguns prêmios; o ator cearense Cláudio Jaborandy foi o Melhor Ator; o filme "O Amor do Palhaço", de Armando Praça, também levou algumas estatuetas; e a produtora Michelline Helena - com seu ótimo"Marilza e a Lata de Leite Condensado" abiscoitou, com justiça, quase todos os prêmios do Festival. Mas teve também espaço para Pernambuco e Sandra Bertini e Camilo Cavalcante também subiram ao palco várias vezes. Sandra até sugeriu para a próxima edição a presença no palco de um "índio" (ao lado da tradicional presença da índia do Boi Pirilampo), no que foi efusivamente aplaudida por um teatro Arthur Azevedo lotado. Já Rosemberg, ao receber o troféu concedido ao filho-cineasta Petrus Cariri, ressaltou a beleza e elegância da mestiçagem afroindígena de Amélia Cristina, apresentadora oficial do Guarnicê e de fato uma das mais encantadoras presenças do Festival tão bem comandado por Euclides.
Após a bonita e bem organizada cerimônia, os convidados dirigiram-se ao Hotel Abbeville onde uma grande festa esperava a todos, culminando com extasiante apresentação do famoso Cacuriá de Dona Teté, um pitéu para os olhos e corações fechando com chave de ouro uma estada inesquecível na capital maranhense onde tudo é calor humano, alegria, ritmo e beleza contagiantes.
Nossa homenagem a todos os agraciados e à enorme equipe de produção, onde destaco Veigas Jr., Celso Brandão, Tia Raimundo, Maria Adelaide (a querida Delô), Gutérres, Felinto Jr., Tamaguinho,o fotógrafo Lauro e a parceria infatigável da Baluz, através de Wágner, o melhor guia de turismo de tantos quanto conhecemos.
E como bem diz Fernando Pessoa, Toda Arte é uma confissão de que a vida não basta - frase dada de bandeja por Euclides no caprichado catálogo do Festival.
Até 2007, se Deus quiser !
Arthur Eduardo Benevides
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