:: Publicações - Revista Oboé

:: Aurora Miranda Leão (teatro)

Irma Vap - Porque Teatro e Cinema Bebem na Mesma Fonte

Vi Irma Vap três vezes no Teatro. Sobretudo pela impagável atuação de Ney Latorraca (ator com quem simpatizei de cara, logo que o vi em Escalada) e Marco Nanini.

O sucesso teatral era O Mistério de Irma Vap, direção de Marília Pera, 11 anos em cartaz, sempre com filas enormes na porta e boa receptividade também junto à crítica. A chegada aos cinemas recebe o título de Irma Vap, O Retorno, e tem apaixonada direção de Carla Camurati - partiu dela a idéia de registrar em película o grande êxito teatral. Bela idéia, aliás. Que bom alguém fizesse igual com textos e montagens do quilate de "É" (Millôr Fernandes), "Brincando em Cima Daquilo" (Dario Fo e Franca Rame), "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant" (Fassbinder), "Bailei na Curva" (Júlio Conte), "As Três Irmãs"(Tchecov, com direção de Henrique Dias) e tantas outras preciosidades dos nossos palcos. Anuncia-se agora a filmagem de Trair e Coçar é Só Começar - mais uma produção Diler Trindade -, êxito da dramaturgia de Marcos Caruso (ele, aliás, um fã de Irma Vap, por isso convidado de Camurati para fazer o produtor da peça no filme homônimo). Mais um grande achado.

Ao ver Irma Vap nas telas imediatamente vem a lembrança de tantas obras lindas, pungentes, antológicas mesmo, vistas no Teatro. A maioria delas ficará guardada apenas na memória, enquanto a energia captada pelas retinas ainda seja capaz de vibrar as filigranas de nossa memória afetiva. Já pensou reviver na telona o impacto de Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva com direção (premiada) de Paulo Betti ? Ou a Blanche du Bois de Tereza Rachel ? Que pena ninguém ter filmado Dina Sfat vivendo com toda sua elegância, emotividade e enorme talento a enigmática Hedda Gabbler de Ibsen... Levaria horas a dizer sobre o quanto faz falta não haver registro fílmico da magnitude de um musical como Vargas, de Dias Gomes e Ferreira Gullar, com a inesquecível atuação de Paulo Gracindo, ou da trajetória conflituosa, sofrida, poética, aguerrida e amorosa da Chiquinha Gonzaga de Rosamaria Murtinho. Eu teria uma alegria contagiante se soubesse que algum iluminado resolveu levar a Pérola de Mauro Rasi (consagração da atriz Vera Holtz) ao Cinema ! Ele bem merece esta homenagem.

Pois bem, tudo isso me tocou ao assistir o novo longa de Carla Camurati - Irma Vap, o Retorno -, um filme que já começa dizendo a que veio. E o diz com muita competência. Uma delícia a abertura: Ney, Nanini e Carla na entrada de uma sala de projeção a discutir quem fará os agradecimentos e como será feita a apresentação do filme. Depois, o enterro do Dramaturgo com muitos artistas do palco prestando as últimas homenagens através de falas de alguns textos emblemáticos, além de faixas nas coroas de flores postando nomes de grandes êxitos do teatro nacional. Aí aparecem Diogo Villela, Louise Cardoso, Paulo Betti, Marieta Severo, Analu Prestes, Marcos Caruso... Insólito momento, captado com sensibilidade pelas lentes de Camurati, onde os Artistas se despedem do colega Dramaturgo com semblantes saudosos, ao mesmo tempo em que suas falas revelam emocionada tristeza pelo fim de tantas peças importantes para a carreira de cada um, de temporadas efêmeras para o muito de labor e dedicação nelas empenhados, os textos permanecendo quase irretocáveis na memória, tal salvaguardas adormecidos no arcabouço afetivo de cada intérprete. Há ainda a participação de Leandro Hassum, Arlete Salles, Francisco Milani, Miguel Magno, Guida Vianna...

Nanini e Latorraca tem um humor refinado e constroem momentos de pura fruição, como na cena de Dona Cleide ensinando música para a bela Camila/Maria Luíza,Cleide fazendo pouco do irmão aleijado, D. Odete dando pitacos na encenação de Darci ou mesmo Darci tentando conseguir comprar os direitos da peça com Cleide. Sem dúvida, Irma Vap é uma comédia para ser exibida para grandes platéias em praças públicas, correr escolas, fazer o circuito dos Pontos de Cultura e ser agendada para os finais de semana nas muitas comunidades carentes dos quatro cantos do país. O grande público vai amar e quanto mais se disseminarem filmes brasileiros nas periferias e bairros pobres do país, melhor. Bem melhor aplaudir Ney e Nanini do que fazer fila para rir (?) com Robbin Williams ou outro gaiato desengonçado estrangeiro qualquer.

Em parceria com Melanie Dimanthas e Adriana Falcão (do espetacular A Máquina), Carla Camurati construiu um roteiro bem amarrado, que sabe com precisão onde deseja chegar e alcança o ponto desejado com maestria, graça, afinação, caprichada fotografia de Lauro Escorel; belo trabalho de Marcos Flaksman na Direção de Arte e de Ricardo Mehedeff e Pedro Amorim na edição; figurinos de Cao Albuquerque, Marília Britto e Muti Randolph; e a suprema interpretação de Ney Latorraca e Marco Nanini, dois Artistas diante de quem só nos cabe aplaudir com efusão e imensa vontade de entender como se consegue construir com tanta maestria vidas que não são as suas e que são muitas num mesmo ambiente.

Tivessem Latorraca e Nanini nascido num país que valoriza em sua completa dimensão a Arte imortalizada por Shakespeare, Molière, Tchecov, Stanislavski, Brecht, e os comentários sobre o filme de Camurati seriam outros. Num país de fato interessado em Arte e Cultura, Ney Latorraca e Marco Nanini teriam de ser, sempre, aplaudidos de pé, com apupos e porque não dizer com os homens tirando o chapéu e as mulheres fazendo-os reverências de joelhos.

Ao interpretarem os quatro personagens centrais de Irma Vap (o diretor Darcy Lopes e sua mãe Odete; a Cleide e o irmão Tony, ator que ficou paralítico), Ney e Nanini redimensionam seu invejável talento, agora finalmente sendo possível mostrá-lo aos quatro cantos do país e do mundo, graças à ousadia de Camurati em filmar a história do que foi o êxito cênico da montagem de Irma Vap com Ney e Nanini por mais de uma década encantando platéias de todas as nacionalidades. Mesmo com esse recorde de permanência em cartaz (figurando até no Guiness Book), num país continental como o Brasil, onde as dificuldades financeiras são tantas, o acesso ao teatro é tão custoso, e a opção pelo lazer cultural é quase sempre a opção-lanterna, uma enormidade de público não viu Irma Vap no Teatro, daí o dobro de acerto de Carla ao resolver levar para as telas a criação de Charles Ludlam.

Thiago Fragoso (provavelmente escalado por sua semelhança com Nanini jovem, também louro e de cabelos cacheados) e Fernando Caruso cumprem com dignidade a difícil tarefa de reviver na tela os papéis vividos anteriormente pela dupla Latorraca-Nanini, mais difícil ainda por estarem ao lado dos dois o tempo inteiro, a inevitável comparação estampada na telona. Lady Enid e Lord Edgard são os primeiros personagens ensaiados para a remontagem a ser dirigida pelo ator Darci Lopes. E nas cenas ensaiadas por Darci-Ney, filmadas no teatro Adolpho Bloch, a magia do teatro está presente e faz um bem danado assisti-la: marcações, entonações, expressões vocais e corporais, movimentos, luz, sonoplastia, tudo quanto compõe a carpintaria cênica é cuidadosamente colocado no espetáculo fílmico e o resultado é uma benfazeja homenagem ao ofício do fazer teatral.

Irma Vap, O Retorno, consagra uma espécie de homenagem-deferência aos meandros da delicada criação teatral, a qual vai-se tecendo como fios numa renda de bilros, onde todas as vicissitudes cotidianas aparecem, sejam boas ou más, nervosas ou tranqüilas, necessárias ou não - como é de praxe acontecer na vida real. E aí, como a esboçar numa palheta de cores e sentimentos que vão resultar nalgum quadro de um grande pintor, uma espécie de aura mágica vai dominando a alma do espectador, sobretudo a do espectador com afinidade, empatia, paixão ou simples vontade de adentrar os portais da criação cênica e fica no ar a certeza do quão é mágico, belo, relevante e especialmente tocado pela Transcendência o ato de Representar. E, se outros méritos não houvesse, só por nos fazer conhecer, reviver ou reafirmar o amor pelo Teatro, o filme de Carla Camurati é uma obra valorosa, importante, que acerta no alvo e escancara as fronteiras da sala de exibição. Pouco importa se a diretora encontrou em filmes ou obras do passado inspiração ou faces análogas de uma história assemelhada. Como atriz-artista que é, obviamente Carla Camurati tem inúmeras referências de espécimes artísticos, ademais na seara dramatúrgica, de onde é egressa.

Um DEZ emocionado a Ney Latorraca e Marco Nanini, excepcionais atores, sem os quais a misteriosa Irma Vap não teria esta invejável longevidade, nem no teatro nem no cinema, e com os quais Irma Vap ganha a imortalidade.

:: Autores

Arthur Eduardo Benevides
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