Arrepiante os últimos capítulos da minissérie JK.
O tempo escasso não me permitiu ser fiel telespectadora da obra. Assisti ao primeiro capítulo, aguardado com ansiedade tão bem divulgada foi a estréia da minissérie (como é costume a Globo fazer) e dele ressalto a convincente atuação de Fábio Assunção (vivendo o pai de Juscelino) e a bela tomada no centro do Rio, juntando na mesma cena Wilker e Wágner Moura, intérpretes do grande Presidente.
Não deu pra acompanhar diariamente mas o que vi me agradou demais. E, sobretudo pela semana final, repleta de acontecimentos emocionantes, senti-me compelida a registrar minha encantada audiência, até porque vi/li bem poucos elogios à obra. Assim sendo, tentarei registrar nestas breves linhas o achado que foi a realização da minissérie, assinada por Maria Adelaide Amaral, Alcides Nogueira e Geraldinho Carneiro.
Da primeira fase, ressalte-se a ótima atuação de Júlia Lemmertz, a criação do clima de tensão característico da época opressiva para a mulher e as "minorias", simbolicamente representado na figura machista, massacrante, violenta e execrável do coronel Licurgo - soberba criação de Luís Mello reafirmando em mais um momento da carreira a extrema capacidade interpretativa. As cenas de crueldade e de aviltamento da condição humana protagonizadas pelo repugnante coronel retratavam o horror de um tempo sombrio onde o coronelismo e suas atrocidades ditavam a vida cotidiana, mormente na opressão imposta às mulheres, às crianças, aos jovens, à liberdade de pensamento e expressão - ponto para a inclusão deste personagem fictício; a beleza e interpretação de Roberta Rodrigues e a intensidade da interpretação de Cássia Kiss; a resolução imagética da passagem do tempo, de JK menino para JK jovem, belo traçado de delicadeza visual; a maestria de Dan Stubalch ao compor seu enigmático Zinc; a qualidade da composição de Débora Falabella e Wagner Moura, ambos transmitindo a docilidade que só aproxima o público de tudo quanto compõem, pois este é um dado da personalidade de cada um que escapa ao controle racional de seus intérpretes. Débora Evelyn mais uma vez aproveitou bem a chance e fez uma Salomé com muita propriedade; Caco Ciocler, sempre muito bom, é um Ator que enriquece qualquer Dramaturgia. Vale ressaltar também a semelhança de Sérgio Viotti com Adolpho Bloch, as participações de Paulo Betti, Otávio Augusto, Paulo Goulart, Cláudio Jaborandy (nosso conterrâneo), Murilo Grossi, Alessandra Negrini, Marília Gabriela, Hugo Carvana, Mila Moreira, Déborah Bloch, Cláudia Netto, Letícia Sabatella, Guilhermina Guinle, Ariclê Perez (atriz excepcional, orgulho da nossa Dramaturgia), Xuxa Lopes, Samara Filippo, José de Abreu, Emílio de Mello, Marília Pera, Camila Morgado, Betty Goffman, Cássio e Tato Gabus Mendes, Denise Del Vecchio, Ana Carbatti, Daniel Dantas, Ana Kutner, Regina Braga, e Mariana Ximenes (muitos vão me perdoar, mas não lhes conheço o nome), uns com maior participação, mas todos igualmente somando com extrema competência para fazer de JK um produto de exportação a merecer todos os prêmios aos quais possa concorrer.
Muitas cenas merecem destaque como a da despedida à beira-mar do magnânimo poeta Augusto Frederico Schimidt, fiel companheiro de JK, sujeito bonachão, leal, inteligência invejável (um primor as "falas" do poeta), feito com brilhantismo por Antônio Calloni num momento memorável da carreira (poeta também, o ator deve ter sentido dupla alegria ao ser convidado a interpretar tão importante amigo de JK), trunfo a mais da minissérie. Outra: a cena do concurso de Miss quando vence a candidata de Taitinga e a mãe invade o palco arrancando o cetro e a coroa da cabeça da filha, num destempero aviltante (cena ocorrida na vida real). E ainda a cena do reencontro de JK e Lacerda, quando aquele perdoa o mais ferrenho opositor num invejável gesto de grandeza; a prisão à saída do Teatro Municipal do Rio; o absurdo do impedimento do pouso do avião (em pane) de Juscelino em Brasília, após o último exílio. Por tudo isso, aplausos para o Núcleo dirigido por Dênis Carvalho.
Por outro viés, que importa se Besame Mucho foi tema de algumas cenas de romantismo entre JK e Sara nos primeiros anos de convivência, quando à época, na vida real, a música ainda não havia sido composta ? Em obra de tamanha importância, vale a criação de zonas de sintonia emocional com o público (e quem pode dizer que não gosta de Besame Mucho?), a ousadia e garra de realizar, a capacidade (rara) de criar laços afetivos com os telespectadores, a escolha da rica trilha sonora, o conjunto da obra, de altíssimo nível. Já as músicas da Bossa Nova e a composição de Vandré (Pra Não Dizer que Não Falei de Flores) compuseram um pano de fundo perfeito para a interseção vida real/ficção daqueles fins de 50, início dos 60. Aliás, outro destaque vai para a bela e delicada abertura enfatizando os traços sublimes de Niemeyer, Patrimônio Nacional.
A minissérie de Maria Adelaide, Alcides Nogueira e Geraldinho Carneiro teve uma semana final que redime qualquer deslize anterior. É uma obra necessária e grandiloqüente. José Wilker, com sua extrema competência para compor personagens, mais uma vez acerta o alvo. Como diz Mestre Artur da Távola: "Wilker possui a rara capacidade de definir, pelo modo de surgir em cena, a essência do personagem que vai representar antecipando-o por inteiro em segundos. Atores muito técnicos como ele, numa certa fase da vida abandonam as escolas e teorias (e as abandonam porque as têm muito arraigadas) e com um simples respirar incorporam o personagem. Wilker não poupa seus fantasmas, diabos e anjos. Convoca-os todos - em mutirão - para a faina de compor os personagens... Invoca o sentimento e procura uma forma de respeito profundo pelo ser que cria, ainda quando dele discorde". Sobretudo quando JK é preso, Wilker dimensiona com tanta precisão de gestos, expressões, olhares, respirações, os dias finais do personagem que é impossível não sentir um profundo arrepio n'alma diante de sua composição para Juscelino. Ao mesmo tempo em que me pego completamente esquecida do ator - como se estivesse vendo JK na tela -, observando o ator cearense atuar, regozijo-me por imaginá-lo (sempre um lutador por causas nobres, libertário vocacionado, nordestino aguerrido e "teimoso", daqueles que não desistem nunca de lutar pelo que acreditam), extremamente tocado, emocionado, feliz, honrado enfim, por lhe ter sido dada a chance de viver na Dramaturgia personagem tão relevante para a História. De tal modo Wilker se apropriou de JK que as cenas finais já mostram o ator assemelhado ao Presidente. A direção aproveita e capricha no primeiro plano ao mostrar lado-a-lado, em Brasília, JK-Wilker olhando o busto colocado em sua homenagem com frase dos que o "ajudaram a prosseguir no sonho de construir Brasília". Esta cena, bem como a da entrada de JK na Catedral, e todas as outras gravadas em Brasília depois da volta do Presidente do exílio final, são de uma intensidade arrepiante.
Chocante a cena na qual Sara vai visitar o marido na prisão, acompanhada das filhas, ambas impedidas de entrar... A entrada de Sara, tomada de longe pela câmara, a revelar as muitas portas ameaçadoras, frias, estúpidas, opressoras da cadeia - símbolo de toda a escuridão que tomava conta do país - e o encontro dela com Juscelino na cela, quando ela cai em prantos por não entender/aceitar o horror pelo qual estavam passando, foram de cortar o coração. Assim também as cenas dos absurdos e incongruentes interrogatórios com o claro-escuro do ambiente, cortes rápidos para diversas expressões faciais de JK, e os quepes perscrutadores dos militares ao fundo, em composição sutil afirmadora da brutalidade da época negra vivida naqueles tempos nem tão longínquos... O mesmo podemos dizer da cena na qual Juscelino chega para visitar a mãe Júlia e ela apenas o olha e cerra os olhos. As lágrimas caem selando toda a dor calejada em tantos anos de doído silêncio e injustificáveis perseguições. Arrasante.
Numa obra de tamanha importância, atenho-me ao fato mais relevante: a extrema ousadia da Rede Globo em produzir a minissérie, o cuidado na escolha dos autores e elenco, a sensibilidade da Pesquisa/Cenografia/Direção de Arte ao compor os ambientes, os belíssimos figurinos, a seleção dos fatos a serem encenados. Não é fácil, numa vida onde tudo passou a ser notícia, selecionar as passagens a serem encenadas. E se através de tantos livros sobre a vida de JK, e pelos próprios manuscritos por ele deixados, já era possível ter noção do tanto sofrimento do qual foi vítima o idealizador de Brasília, muito mais isso é dimensionado quando chega às nossas retinas e sentimentos através de qualificados intérpretes para personagens que existiram, existem ou foram criados através de uma licença dramatúrgica. Impossível não se emocionar e não ter vontade de se aprofundar nas muitas curvas, passagens e meandros da vida conturbada, aguerrida, ética e desbravadora de JK.
José Wilker de tal forma se entregou à composição deste ícone da História Brasileira ou à recriação do Presidente brasileiro que fez 50 anos em 5, tal como costuma fazer em qualquer atuação, (basta lembrar O Homem da Capa Preta, o Conselheiro, o Vadinho, o Giovanni Improtta) que pouco ou nada se nota da sua pequena semelhança física com o verdadeiro JK. Aliás, JK era mesmo tão diferente assim deste seu intérprete ?
Responda quem for capaz. Porque depois de assistir ao banho de interpretação de Wilker, só nos resta dizer aos que ainda possam ter essa impressão: pouco importa se o Artista lembra fisicamente ou não JK. José Wilker compôs com tanta sutileza os dilemas psico-existenciais-políticos-amorosos de Juscelino, que depois de vê-lo como JK, só dá pra ter uma certeza: outro não poderia ter sido o Intérprete. Melhor não poderia ter sido a escolha.
Wilker foi o intérprete ideal para o lendário Presidente Brasileiro. E mais uma vez é Mestre Artur quem me entrega de bandeja: "Há momentos em que é preciso saber reverenciar. Diante de certos Artistas é só o que nos cabe fazer".
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