Quando se tem 20 anos, as bobagens são aceitáveis. Aliás, nem bobagem são. Fala-se quase sem pensar no que vai ser dito, nenhum raciocínio muito profundo sobre tema nenhum. É próprio da idade, de uma fase na qual nos equilibramos, com certas dificuldades, entre a saída tão rápida da infância e a entrada vertiginosa, às vezes brusca, na adolescência, este território tão amedrontador, desconhecido, cheio de vielas e becos escuros nos quais só aos poucos vamos descobrindo como caminhar sem tropeçar.
Isso tudo é próprio da entrada numa nova fase da vida, na qual deixamos de viver só a brincar, pular, correr, comer, rir, se divertir sem compromisso nenhum com nada, para, de repente, adentrar um mundo novo, cheio de precipícios e altitudes desconhecidas, e o pior, cheio de cobranças meio disparatadas - estudar, tirar nota boa, passar no vestibular, pensar no futuro, trabalhar - para quem mal terminou de usufruir das benesses tão benfazejas da criancice espraiada ao léu.
Agora, chegar aos 50, ou passar disso, como quem ainda está pra entrar na adolescência, francamente, deixa de ser engraçado para ser ridículo, risível, inconcebível e digno, talvez, de pena.
Tem sido assim ao longo dos anos, desde final dos 80 com um certo compositor tido como Lobo, aplaudido por alguns... talvez simplesmente por se arvorar de grande coragem ao topar gravar em esquema de produção independente; outros o aplaudem por integrarem a turma do quanto-pior-melhor, para a qual ele serve com esmero ao sair disparando sua metralhadora giratória em todas as direções, abusando do direito de falar sem pensar, mandando às favas a reflexão, o respeito aos colegas, aos ouvintes e aos leitores, e esbravejando desconexos e grosseiros disparates contra todos aqueles que utilizam a música como fonte de refinamento intelectual e lapidação da delicadeza. Estes estão aí o tempo inteiro a nos envaidecer de sermos seus compatriotas. Refinam nossa sensibilidade e afloram nossas melhores emoções. Nesta direção, eles desenham arco-íris na paisagem fatigada de nosso olhar cotidiano e aproveitam a brisa serena de uma manhã cinzenta ou o vento forte de uma tarde ensolarada para espalhar uma beleza que comove e acalenta. É ou não é assim quando toca o som de Chico Buarque, Carlinhos Lyra, Gilberto Gil, João Bosco, Herbert Vianna, Francis Hime, Toquinho, Zé Miguel Wisnik, Djavan, Guilherme Arantes, Caetano Veloso, Luís Melodia, para citar só alguns... ?
Tem-se a impressão de tanta maestria musical/artística funcionar para o tal compositor-metralhadora como uma baladeira ou espingarda potentes causando dor incomôda e inaceitável. Por não conseguir chegar nem perto do TANTO produzido por esses Artistas geniais da refinada Música Popular Brasileira, os quais criam sem nenhum grande esforço - apenas exercendo cotidianamente a vocação ausente noutros -, de forma tão simples e magistral, o arauto da "independência musical produtiva" se sente ameaçado e tenta conseguir espaço na mídia (pior que às vezes consegue) assacando inverdades e injustiças contra quem trabalha, produz, incentiva a criação e faz tilintar as cordas do coração. As composições brotam da alma desses artistas como margaridas na primavera e deveriam servir de parâmetro para se tentar alcançar o mesmo patamar; ao contrário, essa invejável capacidade criativa de alguns atiça o abominável sentimento da inferioridade e da insegurança, gerando inveja, repulsa e inconformismo com a própria mesmice confrontada no espelho. As pérolas que se derramam das notas musicais desses e de outros nomes emblemáticos de nosso cancioneiro jogam o incauto agressor em rumo diametralmente oposto. E aí, como florescer rosas em meio ao pântano ? O belo só viceja onde as sementes do BEM forem plantadas. A ternura só brota onde o terreno é arado com delicadeza.
E aí, quando o artista deixa de trabalhar com o que deve ser a matéria-prima de sua criação - a busca do belo, do bom e da beleza -, nada podemos esperar de leniente. Ou alguém acredita que os sapos possam se tranformar mesmo em Príncipes e que da ideologia belicista possa surgir um oceano de Paz ?
Admite-se a divergência, a discordância, o pensamento contrário, e até as frases estúpidas, às vezes tão propícias à produção de manchetes midiáticas. Que vão parar justamente nos foros econômicos, financeiros e sócio-políticos aos quais o compositor independente (?) e seus asseclas dizem condenar. Mas não se pode admitir o desrespeito à trajetória de tantas pessoas ilustres, ao patrimônio artístico e humano erguido por ícones como Chico Buarque, Herbert Vianna e Gilberto Gil (ilustrando apenas com alguns desses que nos orgulham pela riqueza do que produzem), a Artistas e movimentos culturais que são a própria essência da Cultura Brasileira. É, meu amigo, só resta uma certeza: é preciso acabar com a aspereza, é preciso inventar de novo a Alma do Artista.
É por essas e outras que tantas vezes Nélson Rodrigues incomoda porque se reafirma cruelmente atual: "Os idiotas perderam a modéstia".
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