:: Publicações - Revista Oboé

:: Aurora Miranda Leão (teatro)

A Propósito de Cidade Baixa

Quem acompanha o movimento cultural, sabe: o filme Cidade Baixa vem acumulando prêmios e críticas elogiosas por onde passa. Estréia do diretor baiano Sérgio Machado na ficção - antes ele dirigiu o pouco exibido (infelizmente) "Onde a Terra Acaba", homenagem ao pioneiro Mário Peixoto. Mas quem proporcionou a Sérgio a primeira oportunidade de mostrar sua competência junto às câmaras foi Walter Salles Júnior, esta figura ímpar a quem tanto deve o cinema nacional. E foi num teste para Central do Brasil, realizado no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, meu primeiro contato com o assistente de direção de WS. Sérgio me impressionou desde o primeiro momento pela simplicidade e simpatia. E quando vi o colosso no qual se transformou o filme mais marcante do final dos anos 90, o emocionante Central, comecei a acompanhar com atenção a carreira de Sérgio, ademais sendo ele parceiro de Walter, cineasta de minha maior admiração. Vieram depois O Primeiro Dia e o belo Abril Despedaçado, ambos juntando mais uma vez Walter e Sérgio. E Sérgio partiu para o documentário: Onde a Terra Acaba venceu 15 prêmios no Brasil e no exterior em 2001. Sobre ele, diz Walter Salles: "Sérgio é alguém que sabe ver e ouvir o mundo à sua volta, sensível ao que é intrinsecamente humano – e essas qualidades, esse acreditar, estão na base de Cidade Baixa".

Dito isto, vou registrar algumas impressões a propósito do filme. Como atriz, meu foco prioriza sempre, instintivamente, a interpretação dos atores. E Sérgio conseguiu um elenco de primeira, por isso o filme já começa acertando. Tenho orgulho de ter entregue a Wagner Moura seu primeiro prêmio como Ator de Cinema. Foi em 2002, quando ele sagrou-se Melhor Ator no Cine Ceará por sua participação em As Três Marias. Não havia nenhum representante do filme em Fortaleza e eu, amiga do diretor Aluizio Abranches, mês seguinte iria ao Rio e consegui com a Casa Amarela, entidade realizadora do Festival de Cinema do Ceará, a concessão para levar o troféu de Wágner e também o Prêmio Samburá de Melhor Filme para meu querido amigo Aluizio.

No Rio, eu e Aluizio marcamos de nos encontrar num desses aprazíveis cafés da encantadora Ipanema. E o amigo me fez a grata surpresa de ir ao meu encontro acompanhado por Wágner, este ator baiano, já visto em Abril Despedaçado (mas ele estava tão diferente no filme de Aluízio, que só o identifiquei quando Aluízio me falou da participação dele no filme de Walter). Wágner Moura é de uma simplicidade cativante, tal como é grandioso como Artista e excepcional Ator.

Agora Wágner ganha na Espanha o prêmio de Melhor Ator pelo seu Naldinho de Cidade Baixa. E eu vibro com sua vitória pois na minha sensibilidade é mesmo de Wágner a atuação mais intensa, marcante e visceral do filme de Sérgio Machado. Lázaro Ramos é ator igualmente cheio de qualidades e tem seu talento reconhecido em quase todo o mundo, acumula merecidos prêmios como Ator e sempre faz de qualquer papel um grande momento de Interpretação. É assim também com o Deco de Cidade Baixa, assim como o ator está igualmente magnânimo em Cafundó, o belo filme de Paulo Betti, e em A Máquina, longa de João Falcão que deve fazer brilhante carreira neste 2006 que se avizinha. Mas até por já ter ganho tantos prêmios, desta vez a bola estava preparada mesmo para o gol de Wágner. As cenas nas quais Naldinho aparece ensangüentado, quase morrendo por conta do golpe desferido contra ele no barzinho à beira da estrada (pelo personagem interpretado com maestria por José Dumont), são difíceis de acompanhar tal a veracidade com que são mostradas, tamanha é a qualidade interpretativa de Wagner. Arrepiantes. Pra mim, foi difícil ficar de olho grudado na tela... Outro momento de impacto é a cena do assalto perpetrado por Naldinho a uma farmácia: Wagner compõe com tal propriedade as nuances emocionais do personagem na aflitiva situação de quem começa a enveredar pelo mundo do crime, que consegue causar em nós, espectadores, aflição dupla, por ele e pelo funcionário assaltado. Supimpa !

Gosto de Alice Braga antecipadamente - pelo parentesco com Sônia e também por me lembrar sua mãe Ana Maria, de quem tenho saudades de ver na telinha com sua presença sempre alegre e de rara espontaneidade -, tem atuação singular para uma estreante e merecidamente vem recebendo aplausos por sua interpretação da assediada stripper, natural a ponto de seu próprio pai não ter reconhecido nada da querida "Lili" diante da tela. A menina promete e sabemos: será uma das grandes estrelas do nosso Cinema, daqui por diante. E a tevê também irá fisgá-la, contribuindo para sua popularidade, ponto crucial para atrair mais público às nossas salas de exibição.

A ressaltar ainda no filme, além da competente direção de Sérgio, do trabalho de preparação do elenco por Fátima Toledo, a mão do conterrâneo Karim Aïnouz no roteiro, o apuro da direção de fotografia de Toca Seabra, a montagem soberba de Isabela Monteiro de Castro e a trilha sonora esmerada de Carlinhos Brown e Beto Villares. Um conjunto de grandes profissionais a provar o quão é coletivo o mérito de todo grande trabalho artístico.

Sérgio Machado é um doce de pessoa. Incrível como alguém de alma tão transparente, educação tão estampada no rosto e nos gestos, consegue fazer filme de matrizes subjetivas tão distantes das dele. O filme é incômodo por ser muito violento ou por destacar tanto a violência, sinal da globalizante contemporaneidade, próprio das zonas baixas das grandes cidades. Há muitas cenas de briga, deslealdade, agressividade, ciúme, violência... Nada disso faz parte do universo de Sérgio e por isso parece estranho ter sido este o tema de escolha para sua estréia na ficção. Mas Sérgio escolheu este tema com intenção declarada de afirmar: em toda zona periférica e em todo comportamento considerado à margem da sociedade, há estranhas ligações e incríveis semelhanças com nuances contidas no escaninho sentimental de qualquer pessoa, em qualquer classe social.

O filme é tão mais profundo quanto mais se descobrem nele, através de todos os muitos comentários já publicados a respeito, novos patamares de discussão sobre diferentes temas, suscitados a partir do enfoque narrativo. Em cada um, o articulista percebe nuances outras, o diretor em cada um toca viés de sensibilidade diverso. E assim, como em toda grande obra de arte, quanto mais significantes encontramos em Cidade Baixa, quanto mais leituras possamos fazer do filme de Sérgio Machado, mais o diretor afirma o acerto de seu foco narrativo. Quanto mais lições se tire a partir de Cidade Baixa, mais o cineasta prova sua enorme capacidade de transmitir o que lateja fundo na alma de toda gente habitante dos submundos das cidades grandes, nos quatro cantos do mundo, criando laços de sintonia entre os personagens mostrados na tela e os muitos personagens a habitar no fundo de cada um de nós, também seres com pequenos, grandes, leves ou sérios embates na área sexual porque, como dizia o imortal Freud, "Nem tudo é sexo, mas o sexo está em tudo".

:: Autores

Arthur Eduardo Benevides
Aurora Miranda Leão (teatro)

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