:: Publicações - Revista Oboé

:: Aurora Miranda Leão (teatro)

Lennon: Um Feminista Cada Vez Mais Necessário!

Passados 25 anos, John Lennon é ainda mais importante para a história da Civilização. À época, a notícia causou surpresa, dor e revolta. Calavam uma das vozes mais belas de todos os tempos: assassinaram estupidamente o gênio autodidata da música, expoente máximo da pregação da Paz e da luta pelo fim da violência. Assassinaram John Lennon.

Até hoje, ouvir isto dói e cala fundo a alma. Passados 25 anos de sua ausência, Lennon é um símbolo cada dia mais forte em defesa do Humanismo. Como todo grande Artista, quanto mais passa o tempo mas John Lennon afirma-se como Artista importante, legenda viva no coração de muitos, pregador pacifista e revolucionário. Um ídolo inconteste para gerações e gerações. Necessário ao mundo caótico no qual estamos vivendo. Mais de duas décadas são passadas e o legado de John se afigura maior e mais importante a cada dia. Em 80, tomada de assalto pelo absurdo da notícia, a emoção se fez Senhora e a reflexão teve o tamanho da brutalidade de seu imediatismo.

A previsão e execução do "acidente" foram perfeitas. O tempo passou e foi clareando a verdade. Mais difícil foi ficando acreditar tão-somente na loucura de um fã como único responsável pelo fim trágico do ex-Beatle. Simplista demais o argumento para quem era portador de tantos signos e símbolos expressivos de todo o sonho de uma geração, sonho frontalmente contrário à ideologia dos poderosos detentores do mandanismo americano. Lennon, líder do mais grupo musical das décadas de 60 e 70, influenciava multidões a seguirem e a quererem seus mesmos ideais, suas mesmas reivindicações, suas mesmas(justas) lutas. Sua presença foi sempre um incômodo para os pregadores do mal, aqueles para quem falar em Solidariedade, Humanismo, PAZ e Amor soa como uma chicotada no lombo. As atitudes, entrevistas e posicionamentos político-sociais contundentes, polêmicos, aguerridos soavam como constante ameaça a sólida (?) estrutura do regime. Porque Lennon liderava não só ao seu dileto e fiel grupo de músicos – Paul, George e Ringo -, mas a quase totalidade da juventude mundial naqueles adoráveis anos 60-70.

Seu exemplo permanece/permanecerá enquanto lutar por ideais que promovam o bem-estar da humanidade seja uma ameaça aos sangüinários de todos os regimes e de todas as etnias; enquanto as bases de sustentação dos regimes totalitários e incongruentes de toda ordem sejam a censura, o arbítrio, a alienação, a covardia e o aceitar pacífico das ditaduras.

Mataram John Lennon. Calaram a expressão maior de alguém que só pregava a paz, o amor, a não-violência. Mataram Lennon mas não mataram em milhões a admiração por ele, a aprovação ao que pregava, a força e beleza de suas composições. Lennon era feliz. Às vezes só isso já incomoda muita gente... Ao lado de Yoko, formava um casal-sìmbolo da união verdadeira, do amor dedicado, amigo, pleno de sexo e harmonia. Era um homem muito à frente de seu tempo, por isso mesmo um grande feminista. Dividia sem constrangimento o palco com Yoko e deixava a mulher dar as cartas sem dilema algum. Ao contrário, fazia questão de ter Yoko à frente de suas atividades profissionais mostrando extrema sabedoria e sensatez ao revelar com aguda percepção o quão o homem é mesmo dependente do colo, do afago e da força feminina diante da vida. Com sua invejável sensibilidade e capacidade de enxergar além, Lennon anunciou ao mundo, através de seu testemunho pessoal: "A pessoa verdadeiramente livre, independente, é aquela que tem coragem para escolher suas próprias dependências" (porque dependentes somos todos nós). Sem recato nenhum, John Lennon estampava no semblante, nos gestos e nas atitudes a perfeita sintonia com a mulher. Assumia-se feliz e completamente dependente dela. Não menos sábia, Yoko, com toda liberdade para agir como quisesse, só fazia o que ele queria, ou melhor, fazia de tudo sempre para agradar ao companheiro. E outro será o desejo dos homens ao procurar uma companheira ? E como encontrar uma mulher assim, que além de grande companheira, confidente, parceira de todas as horas, amante, seja também fiel, dedicada, impulsionadora, esteio para novas conquistas ?

Lennon deixou aos homens de todo o mundo esta lição tão singela quanto eloqüente: "Sejamos generosos no amor. Nos deixemos ser guiados por elas e elas nos deixarão dominar". De tal modo foi marido que chegou a inserir o sobrenome de Yoko como seu sobrenome oficial. Passou a ser John Onno Lennon. Num simples gesto, a demonstração de um despojamento invejável no trato das relações conjugais. E por que não se dobrar aos encantos da mulher e deixar isso servir de exemplo aos outros, se sua trajetória de vida realçava em cada passo esta almejável sintonia com a companheira ? Não importava Yoko não ser bonita, ser mais velha que ele, ser considerada uma artista menor. Ele a amava e isso era tudo. Que outro legou ao mundo esta mesma visão de parceria a dois ? Que outro feminista foi também um pregador em defesa da fidelidade ? Só Vinícius de Moraes, de outro modo sim, mas com igual carinho pelas companheiras e apreço pelas mulheres, também ele um feminista de primeira linha. Enquanto Lennon fez a belíssima Woman para Yoko, Vinícius nos legou, entre tantas pérolas do mais fino apuro estético para falar de Amor e Paixão, os versos imortais do Soneto de Fidelidade: "De tudo, ao meu amor serei atento antes..."

De tal relevância foi a presença da japonesa na vida do ex-Beatle que Lennon passou a ser não só um Artista melhor, porque cada vez mais amoroso e pacifista, como até mesmo passou a ser um Pai de verdade, desses que nem todos o são, depois da entrada de Yoko em sua vida. Basta olhar sua biografia e conferir a diferença no trato com os dois filhos, Julian e Sean.

Foram muitos pequenos gestos a formar um Lennon cada vez melhor, mais melódico, incisivo com docilidade, determinado sem agressividade, pregando sempre em defesa da Paz, do Amor e do Humanismo com a força da palavra, a beleza das canções e a ternura como princípio fundamental. Ingredientes perfeitos para cativar pela emoção. Influenciou e influencia até hoje porque nunca foi impositivo. Como esquecer daquela semana num hotel, quando nasceu Give Peace a Chance, onde ele e Yoko fizeram as célebres fotos na cama, ambos de branco, e depois nus, pedindo a todos, do mundo inteiro, apenas Uma Chance à Paz ? E o magnífico show no Madison Square Garden, em 72, quando Yoko começa a ler um texto condenando jovens, estudantes, cidadãos de bem, etc – para uma multidão que estranhava a leitura de texto tão desproporcional ao que Lennon representava – e ao final ela revela o texto ser de Adolph Hitler... ? Lennon e o conjunto inteiro no palco voltam então a bradar apenas o Dê Uma Chance à Paz, acompanhados entusiasticamente por uma multidão.

Fico a me perguntar o que diria hoje este menestrel da Paz, da Fraternidade, do Amor e da Liberdade ao constatar as abjetas guerras no Oriente Médio, a ideologia repugnante de Bush, as estúpidas e inexplicáveis brigas de gangues de times de futebol no Brasil ? Mais e mais a gente fica a pensar: se àquela época, a pregação de Lennon era importante, mais importante ainda seria hoje num mundo tão insensato, tecnológico, desproposital, sem rumo e sem parâmetros éticos, numa sociedade tão pouca cultivadora de valores morais e humanistas. Nem precisa ir muito longe. Basta focar o olhar nos jogos de futebol. Pode haver coisa mais insana hoje que as brigas de torcidas opostas no país ? Torcer por um time virou contagem de pontos para a loteria da morte violenta. Lennon estaria indignado e perplexo ante este quadro inconcebível de barbárie contemporânea. Que sua vida seja cada vez mais exemplo para os sangüinários de todos os credos, times e raças. Possam os beatlemaníacos brasileiros unir suas vozes e energias aos que imploram pela volta de um futebol sadio, para divertir e não para provocar mortes. Quem sabe, criar um grande Dia de Lennon, no qual, numa hora determinada, estádios de todo o país possam ser "invadidos" por músicos, artistas de todas as áreas, jovens, esportistas, mulheres, crianças e pessoas de bem de todas as idades, formando-se um grande coral onde todos fiquem por meia hora a entoar o Hino da Paz -Give Peace a Chance - como grande Hino de Amor à Vida ?!

Esta turma que vem transformando o futebol brasileiro em negação do esporte, do lazer e da diversão, ensandecida com a idéia anti-democrática de um time único (Só as ditaduras são contra o pluralismo), precisa conhecer a história de vida de John Lennon, que se pudesse voltar, por certo perdoaria seu algoz e ainda iria ensiná-lo a beleza da Música, a necessidade da Paz e a força do Amor. Lennon mostraria, mais uma vez: o contrário não é adversário, é apenas a outra ponta de um mesmo leque; o diferente é bem vindo porque só assim podemos valorizar o igual, o Sol só é tão valorizado porque há a Lua fazendo um delicioso contraponto. Give Peace a Chance ! Um SIM à Vida e um grande coro para cantar em uníssono: Vamos Dar uma Chance à Paz !

Fica a modesta sugestão para este Novo Ano que se avizinha e para que todos entremos 2006 fazendo ecoar, em todos os corações, o exemplo de John Lennon, o músico universal da Inglaterra, autodidata, cuja "arma" era apenas os longos e lindos cabelos cor-de-mel, as enormes costeletas, os oclinhos amarelados, a inofensiva guitarra ou seu incomparável piano, com a qual semeou o Amor ao Próximo, a fraternidade, a tolerância, o respeito ao diferente. Lennon apenas so-le-tra-va ao mundo: Dê Uma Chance à Paz !

E é com enorme saudade e eterno apreço por John Lennon, o Menestrel da PAZ, neste Dezembro onde é tão imperativo uma pausa para a reflexão, que sugiro um grande Viva John Lennon ! A quem todos nós, adeptos da Civilidade, devemos todas as honras e homenagens.

:: Autores

Arthur Eduardo Benevides
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