Comecei a gostar de Teatro ainda menina. Nas trilhas de minha infância, no acompanhar de perto os passos de minha mãe – ora na simplicidade das roupas na ida ao mercado de peixes do quase deserto Mucuripe, com os cabelos na touca ou rolinhos, madeixas por fazer; noutras horas dava inveja os lindos cachos dourados completando o belo figurino para as festas nas quais ela e meu pai formavam sempre um casal apaixonado -, fui tecendo sem saber o condão de minha vocação para a arte de interpretar. Foi minha mãe, sem jamais atinar, na sua cadência desprendida de moça carioca, ao apresentar-se sempre de forma diferente para o olhar e a sensibilidade da filha tímida, envergonhada de tudo, quem foi plantando em mim a semente do amor pelo Teatro. O tempo foi passando e aquela sementinha foi semeada com livros, recortes de jornais e revistas, e dicas preciosas de meu pai, sempre a falar nos grandes nomes do Teatro e do Cinema Brasileiros – o Aderbalzin, a Joana Fomm, a Irene Stefânia, o Carvana, o Milton Morais, e tantos outros –, sempre a me indicar importantes fontes de leitura. E assim, meio sem saber nem querer, fui-me afeiçoando irremediavelmente pelas florestas encantadas do Reino do Faz-de-Conta, lugar onde residem todos os grandes alicerces desta arte milenar e sedutora, o Teatro.
Tinha apenas 13 anos. Resolvi: ‘Quero ser Atriz’. Aquilo dito por uma menina que mal abria a boca nas rodas de amigos, encabulada até para se expressar nas provas orais, parecia um disparate. As colegas riam. Era mesmo difícil acreditar. Mas aos 15 anos já pisava meu primeiro palco, sob a direção de minha saudosa e querida professora, Gracinha Soares. "A Lenda do Vale da Lua", de João Ribeiro Chaves Netto. Com esse texto, eu e um grupo de alunos nos apresentamos em diversos espaços da cidade. De lá pra cá, meu encantamento com o Teatro só cresceu.
Tenho saudade dos personagens que moram em mim e talvez fiquem sempre adormecidos em minha memória afetiva. Tenho vontade de reviver todos eles – desde a Pomba-Rolinha do musical "Cantarim de Cantará", de Sylvia Orthoff, até a Catarina de Causa Perdida. Sou um pouco de todas as personagens que vivi, sempre com dedicação e enorme prazer e também as personagens encantadas, habitantes de meu repertório cênico – vontade de encarnar a Branca Dias de Dias Gomes, a guerreira do Milagre na Cela de Jorge Andrade ou alguma das magníficas criações de Mauro Rasi.
O ensino do Teatro foi uma conseqüência natural da prática costumeira da observação constante do cotidiano à luz dos fundamentos do Teatro. Mostrar às gerações de todas as épocas e as idades de todos os tempos: o Teatro é um caminho seguro e prazeroso para o autoconhecimento. Não é arte para alguns iniciados, não exige pré-requisito, não estabelece regras para aquisição do passaporte nem enumera padrões especiais exclusivos para especialistas. Aprender a ser platéia e provar do gosto inigualável de estar no palco. Fazer-TE ATRO. Para todos. Com os que quiserem vir. Ser mais e ser melhor. Ser muitos e Único, indivisível. "Ser 2 e ser 10, e ainda ser Um", como diz o poeta Herbert Vianna. Daí porque o grande Ator é aquele que através do ato de Representar comunica seu depoimento pessoal.
Desmistificar o acesso ao Teatro. Referendar para o maior espectro possível: o ato de Representar é essencial para o bom funcionamento das faculdades da emoção, da sensibilidade e do encontro da auto-estima.
Fazer TEATRO aproxima você de suas verdades mais profundas. Facilita o entendimento das diferenças e promove o convívio pacífico dos divergentes. Aceitar-se a si mesmo e assim estender a ponte para o verdadeiro encontro com o Outro. Eis o mistério e o encantamento do Teatro. Arte necessária quanto mais o tempo passa e mais caminha o homem na direção das máquinas e do nefasto embrutecimento.
Arthur Eduardo Benevides
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