:: Publicações - Revista Oboé

:: Aurora Miranda Leão (teatro)

Bilhete a José Wilker, Senhor do Destino

Acompanho a atuação de José Wilker há muito, noveleira assumida, além de ter enveredado também pelos caminhos do Teatro e ter nascido em berço embalado por pai cinéfilo. Daí, cearense que nem Zé, não havia porque não acompanhar a trajetória do conterrâneo e aprofundar, ao longo dos anos, uma grande admiração pelo trabalho dele, sua postura cidadã, suas performances como profissional antenado com os problemas da profissão e sempre buscando caminhos para realizar seu trabalho da melhor forma. Assistindo sua magnífica criação para o personagem Giovanni Improta, da novela recém-finda Senhora do Destino, senti-me convocada a aplaudi-lo na forma desta homenagem-bilhete.

Ainda quase menina ouvi falar da montagem de "A China é Azul", texto escrito por você e sobre o qual tenho ainda a maior curiosidade. Nunca consegui encontrá-lo em livraria alguma. Mas sei do grande auê causado à época de sua montagem no Teatro Ipanema, você e Rubens Corrêa, um dos magos do Teatro Brasileiro (de quem tive a honra de ser aluna) dividindo a cena. Em Bandeira Dois, do inesquecível e genial Dias Gomes, você marcou com um personagem descontraído, o qual compôs com tamanha espontaneidade que os convites para outros papéis começaram a virar rotina. Muitas outras novelas se seguiram e você foi consolidando uma enorme empatia com o público. À época da novela O Espigão falavam muito numa tal briga (?) entre você e a atriz Wanda Lacerda, fato nunca totalmente esclarecido mas que sua trajetória séria, ascendente e ininterrupta em todos os meios de comunicação, deixou esmaecer na poeira das revistas que apodrecem nas bancas de boatarias. Em Anjo Mau sua presença foi tão marcante que até hoje, ao ouvir música de Guilherme Arantes, a gente liga "Meu Mundo e Nada Mais" ao seu Rodrigo. Em Roque Santeiro, Fera Ferida, A Próxima Vítima e Suave Veneno outras quatro criações que deixaram saudade. Em Desejos de Mulher, de 2002, a graça refinada de Ariel, o homossexual bem humorado e inteligente que nós, seus fãs, amávamos ver. Foram muitas as vindas a Fortaleza. Numa delas, foi Mestre de Cerimônias no Cine Ceará. Noutra, meados dos anos 90, subiu ao palco do Teatro José de Alencar com Maracutaia, uma delícia de comédia, na qual dividia a direção com Miguel Falabella, tempo no qual trocamos idéias sobre a arte de representar. Foi mais ou menos nessa época que ficou meio afastado da telinha e então enveredou pelo caminho da crítica cinematográfica, possuindo hoje uma das maiores videotecas do país – são quase cinco mil títulos. Entre tantos trabalhos na telona, destaque para o Vadinho de "Dona Flor", até hoje a maior bilheteria do Cinema Nacional. E vieram Bye Bye Brasil, O Homem da Capa Preta, Guerra de Canudos, For All, O Homem do Ano, Maria, Mãe do Filho de Deus, Viva Sapato !, e Onde Anda Você, entre tantos outros. Se me perguntarem de qual atuação gosto mais, não sei responder. Em todas, você é um outro completamente distinto. E todos são a sua essência maior, a do criador que se atira do alto do precipício cheio de coragem, enamorado pela entrega, sem querer saber como tudo vai terminar mas com a certeza de dar de si sempre o melhor. Que você entrega ao público de mão beijada e com tanta generosidade que a gente participa das histórias como se delas fosse co-autor.

Foi assim também no curta "O Banquete", de Marcelo Lafitte, ao lado de Norma Benguell. Mais uma vez, aparentemente sem nenhum esforço, compõe um personagem com maestria. Em muito boa hora, a prefeitura do Rio de Janeiro lhe chamou para a presidência da RioFilme. Demonstrando capacidade administrativa, aliando cultura, sensibilidade, garra e inteligência você afirma o quanto um Artista pode realizar quando ele é capaz de burilar seu Talento. Na RioFilme, os que acompanhamos as notícias de nosso Cinema, sabemos: você tem feito de tudo para melhorar/impulsionar nossa Sétima Arte. Foi a partir de sua chegada à Distribuidora que nasceu a profícua idéia de fazer na capital carioca a Cidade do Cinema, projeto já em andamento. A Cidade do Cinema deverá transformar os antigos galpões do cais do porto, no centro do Rio, numa fábrica para agregar valores, dar visibilidade aos criadores nacionais do Audiovisual, formar público para o Cinema Nacional, fomentar novos realizadores, reunir enfim gente que faz e gente que ama Cinema. Uma idéia fantástica, pela qual torcemos com ardor. O Brasil precisa, o Rio agradece, cinéfilos e realizadores vão adorar, e você merece ver sua idéia concretizada.

Ainda estudante de teatro, anotei uma frase sua que nunca me saiu da cabeça: "A pior coisa que um ator pode fazer é Representar". À época, ainda muito jovem, fiquei meio sem entender. Mas meus anos de teatro foram importantes o bastante para me fazer compreender o motivo de a frase me acompanhar até hoje: porque é a mais cristalina verdade. "A pior coisa que um ator pode fazer é representar". Em Senhora do Destino, você mais uma vez provou seu talento incomum dando show de interpretação com o emblemático Giovanni Improta. Uma delícia acompanhar sua atuação. Você criou um tipo cafona-crianção adorável, sem descambar para o grotesco, tornando cada aparição um motivo para prender a atenção do telespectador, que respondeu à altura e passou a usar o "vocabulário" do Giová nas ruas. Preciso nas galhofas, na matreirice e no jeito desasnado de conduzir o personagem, você foi o grande trunfo da novela de Aguinaldo Silva (ao lado da não menos ‘felomenal’ Renata Sorrah). Arrisco até a dizer: enquanto você não aparecia, o capítulo não deslanchava.

E nas muitas entrevistas dadas por conta do êxito de Giovanni, o destaque foi também para seu amor pelo cinema e a ligação intensa com sua terra natal. Em todos os momentos, a inteligência aguçada e o lastro cultural fermentado ao longo dos anos de estrada na carreira artística e no cotidiano de um cidadão brasileiro respeitável, conterrâneo que nos orgulha e digno de nossos melhores APLAUSOS. Saravá, Wilker !

ALGUMAS PÉROLAS DE JOSÉ WILKER

* "Brinco 25 horas por dia e 90% do que eu falo não vale a pena registrar"

* "Não tenho a menor paciência pra burrice e pra ignorância".

* "Qualquer débil mental aparece num programa de televisão e tem notoriedade e visibilidade. Eu acho que a minha geração é privilegiada. Nós fomos obrigados, durante um tempo, a nos levar a sério. A gente aprendeu a ler. Não é se alfabetizar. É entender o que se lê, é fazer do que se lê alguma coisa útil e produtiva".

* "O pior elogio que alguém pode me fazer é me chamar de natural. Eu não sou natural. Eu sou ator, eu minto".

* "Já fiz teatro, cinema e tevê e odiei porque não estava gostando do ambiente, da coxia, dos bastidores. Eu não gosto mais de teatro, de cinema ou de tevê. Eu gosto de pessoas".

* "Hoje ser celebridade está interessando mais do que ter Talento e Competência".

* O importante é que você acumule Cultura para administrar seu talento porque só o talento não vai..."

* "Os grandes diretores de cinema vêm de uma sólida formação teatral. Esta passagem do Teatro para o Cinema é essencial".

* "Eu acho que o texto de teatro, televisão, cinema é como uma partitura de música e cabe ao ator lê-la, e ao ser capaz de lê-la, tocá-la".

* "O Oscar não tem a menor importância. Tecnicamente, o Oscar de filme estrangeiro é uma espécie de mea-culpa do cinema americano pela invasão e o massacre que promovem mundo afora".

* "Os artistas estão sendo convocados a discutir o projeto de criação da Ancinav. Você acha que um Stálin iria colocar um projeto qualquer que fosse pra sociedade discutir ? Claro que não. Ele simplesmente decretava... Audiovisual é estratégico para um país numa época em que a informação é o poder".

· "Votei em Lula em todas as vezes em que foi candidato e voto de novo".

:: Autores

Arthur Eduardo Benevides
Aurora Miranda Leão (teatro)

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Teatro, A Mais Difícil e Mais Misteriosa das Artes

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Bilhete a José Wilker, Senhor do Destino

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