:: Publicações - Revista Oboé

:: Aurora Miranda Leão (teatro)

Tanto Sentimento

Um sonho recorrente, a morte anunciada, um acerto de contas com o passado, o mesmo lugar onde morreu, nos braços de outro, a fugidia amada. Uma jovem mulher, enigmática e triste, ingênua e espontânea, exala pueril sensualidade enquanto caminha como se fugisse do próprio destino. Benjamim reencontra nas semelhanças e no mistério da jovem de andar sempre em fuga, a ensolarada e fugaz Castana, a quem sempre devotou amor intenso, não desfeito nem mesmo pelo tempo... Castana Beatriz, a mulher de seus sonhos, perdida pela irracionalidade do pai repressor.

Assim se engendra a trama de Benjamim, criação de Chico Buarque, trazida às telas pelas mãos, a sensibilidade e a competência de Monique Gardenberg. Benjamim merecia carreira muito mais longa do que teve. É desses filmes que marca fundo a alma, um dos melhores nacionais de todos os tempos.

O longa de Monique Gardenberg me ganhou logo na abertura com a escolha sensível dos letreiros e o fundo musical preciso, acurado, saudosista, nos conduzindo a um tempo que não vivemos mas intuímos pelo sentimento coletivo de saudade do que era tão bom e tão cedo se foi.

Com o lançamento em DVD, corri à locadora mais próxima. Vi e revi várias vezes a obra de Monique e quanto mais vejo mais me encanto com a poesia estampada na tela, a me perguntar constantemente pela mente privilegiada de Chico Buarque – que reluz onde quer que ele se arvore de entrar. De onde Chico consegue inspiração para fazer tanta coisa tão linda, tocante, irretocável? Que dons de Mestre do Encantamento tem este "nosso guri" que consegue engendrar tanta obra de Arte com tão extremada senso emocional? Será alguém capaz de estar frente a uma obra de Chico e não se emocionar ?

Talvez você seja um dos tantos que ainda não viu Benjamim. Pois pra não ficar aí boiando, doido pra conferir o que estou dizendo, ou mesmo achando que estou opinando sem saber, pare de marcar bobeira: corra a uma locadora perto de você, e alugue sem pensar duas vezes este Benjamim de Chico-Monique. Se ao final da exibição, você não se considerar diante de uma obra magnífica, perdão. Talvez você não tenha sensibilidade suficiente. Ou tenha buracos demais na alma. Por isso está impedido de enxergar esta Pérola Cinematográfica por nome BENJAMIM. Então vamos lá ! Com esforço, vou tentar inserir você, leitor amigo, no trajeto desta obra de Chico Buarque, transcrita para o cinema por Monique Gardenberg.

Benjamim é desses filmes com os quais você não sente o tempo passar. Um colosso para os olhos e a alma. São duas horas de projeção, e quando você se dá conta disso, até leva um susto, tal o caminhar quase estático do relógio. Por outra, até achei que a projeção poderia durar mais. Ficaria mais tempo me deliciando com a instigante trama onde pontificam Ariela Masé, Benjamim Zambraia e Castana Beatriz – preste atenção na sonoridade dos nomes. Quando Benjamim resolve sair à procura de Ariela, depois de encontrada a foto antiga de Castana, e pergunta a um e outros na rua se alguém viu uma garota parecida com aquela e ninguém viu... a câmara afasta-se e joga na tela a constatação do quanto o personagem está perdido num emaranhado de emoções aflitivas. A solidão caótica de Benjamim, escancarada pela tomada do alto do edifício, emudece e solidariza o espectador com a dor do amor perdido. E a partir dali, cada take é um convite ao embarque sobressaltado de Benjamim, o personagem criado por Chico, recriado por Monique e revelado por Paulo José, cuja atuação comove e conquista na medida certa. Monique foi tinhosa e sábia em sua decisão de querer o ator para este personagem. A partir de seu filme, Benjamim Zambraia passa a ser um ícone no histórico dos grandes personagens brasileiros apaixonados/apaixonantes, do qual já fazem parte Orpheu, Vadinho, Macunaíma, Policarpo Quaresma, O Grande, O Homem Nu, O Grande Mentecapto... Uma alegria rever Ernesto Piccolo, um dos grandes homens de teatro do país, pouco "explorado" pela tevê e pelo cinema. Ernesto é desses atores que chega de mansinho, só pra dar seu recado, e o faz com uma competência grandiosa. Um luxo tê-lo em qualquer produção ! É preciso também tirar o chapéu para Guilherme Leme, extremamente convincente como o policial paraplégico. Nélson Xavier e Chico Diaz, dois de nossos maiores na arte de interpretar, dispensam comentários adicionais. Engrandecem qualquer arena onde tomem parte. Alegria também ver Ana Kutner. Rodolfo Bottino compõe com carisma e espontaneidade o publicitário sempre em busca da boa campanha. Mauro Mendonça tem atuação marcante. Ivone Hoffmann, embora em breve aparição, também contribui para o brilho de todo o elenco, que tem ainda Micaela Góes e Dada Maia. A montagem de João Paulo Carvalho é qualquer coisa além da conta. Com uma trama cheia de idas e vindas, mesclando passado e presente de vários personagens, o montador deve ter tido trabalho redobrado. E o resultado é espetacular ! Digno de todos os Prêmios. Os recursos de passar para outra cena, e permanecer com as falas de cena recém-finda, em off, ratificam o labirinto fílmico, emoldurado por uma trilha sonora do mais alto quilate. Cleo Pires impressiona pelo carisma, beleza e sensualidade. Não à toa, venceu o Festival do Rio 2003 como Melhor Atriz, confirmando a velha máxima: "Filha de peixe, peixinha é". Afinal, Glória Pires é de nossas poucas atrizes não egressas do Teatro, e ainda assim, de talento irrefutável, sempre citada por sua invejável capacidade interpretativa.A reconstituição de época é outro ponto positivo. Uma delícia rever/conhecer o Rio de Janeiro de outrora. A direção de arte de Marcos Flaksmann é supimpa ! Enfim, Monique fez um Benjamim de arrasar quarteirão. Gosto de tudo no filme. A fotografia mais escura nas cenas mais fortes, os grandes espaços vazios dos apartamentos procurados, a sessão de fotos de Castana e Benjamim à beira-mar, revelando uma Cleo alourada, fina, elegante, uma quase deusa daqueles dourados (?) anos de paixões, liberdade feminina, música de bom gosto nas rádios... e repressão a caminho. Momento inusitado: a cena fotográfica dos modelos na praia... Um luxo ! Como aliás é ótima toda a fotografia de Marcelo Durst. O roteiro, assinado por Monique, Jorge Furtado e Glênio Povoas é outro ponto que merece destaque. Uma das cenas mais lindas do filme é quando Benjamim aparece feliz da vida, depois de almoçar com Ariela, ao som de Alegria (composição de Chico Neves e Arnaldo Antunes, composta especialmente para o filme) e distribui com mendigos da noite carioca os antigos figurinos com os quais posava de modelo, cai no mar da enseada de Botafogo e a letra a dizer "A tristeza é uma forma de egoísmo..." Há também um momento cheio de graça, cuja leveza quebra por instantes o clima sombrio, que é o das jovens levando Benjamim a gincana e lá uma delas inventa que ele é um famoso ator "de uma tragédia grega que está há três anos em cartaz..."

É interessante notar que, apesar dos mimos que vai ganhando dos homens que se encantam com sua beleza exótica, Ariela é triste e essa tristeza só se revela em alguns momentos, como nas vezes em que se debruça a escrever pra mãe ou o marido, ou quando senta pensativa junto ao fogão, como a dizer: "Pra onde vai me levar essa vida tão cheia de disfarces e de compromissos que assumo pelos outros? "

No caleidoscópio amoroso-aflitivo de Chico, mais um dado instigante: notem que Castana em conversa com Benjamim, os dois adolescentes, ela folheando imagens de santos, observa: "Nobres e santos estão sempre de boca fechada". Ao que Benjamim, concordando, rememora: "Nunca vi Nossa Senhora de boca aberta". Depois disso, um corte para os lábios vermelho-sensuais de Ariela... Esta está sempre a rir, de boca escancarada, nas cenas com Benjamim. Mas a infelicidade de Ariela está logo adiante e perpassa o filme como um tango de Piazzola, o mesmo que emoldura alguns dos momentos mais tocantes da obra de Monique. A relação dos dois algozes de Ariela – o marido Giovan e o patrão Cantagalo, os dois fazem parte do mesmo clube, como lembra Cantagalo (Nélson Xavier). E o clube é justamente aquele dos homens de vida sem sexo, cujo prazer nasce de imaginar o objeto amado (?) sendo usufruído por outrem, para logo depois se consumar na morte desse outro. E nesse emaranhado de perversão e "justiçamento", a menina vinda do interior, ingênua e bem intencionada, que cedo perdeu a mãe e jovem achou ter encontrado o grande amor, vai vendo seus dias e seus sonhos se esvaírem como água correndo entre os dedos ao tempo em que atende as demandas do patrão e satisfaz o desejo mórbido do marido. Esses seus mesmos algozes refazem o percurso sangrento que levou a mãe dela a morte e, como se fazendo justiça com os poderosos "vítimas da rebeldia", utilizam a mesma casinha pequenina que serviu de refúgio contra a repressão, para castigar com a morte os que, tal como a aguerrida Castana, buscam apenas prazer e amor, liberdade e companheirismo. Por isso, se vai Benjamim. Um reencontro drástico e inesperado com o "ninho" que abrigou Castana e viu nasceu Ariela.

Monique Gardenberg dedica esta sua obra-prima à irmã querida, brutalmente assassinada pela violência de cada dia. Mas a cineasta fez a irmã, e a Chico Buarque, a melhor homenagem que poderia ter feito com esta jóia de filme que é Benjamim. Para Monique, vale lembrar: "Se você crê em Deus, encaminhe pros céus uma prece, e agradeça ao Senhor, você tem o autor que merece !"

:: Autores

Arthur Eduardo Benevides
Aurora Miranda Leão (teatro)

Cor de Pecado e Gosto de Diversão

O Festival Mais Cinematográfico do País

Teatro, A Mais Difícil e Mais Misteriosa das Artes

Quando o Cinema Vira Festa de Ritmos e Cores!

LULA É Nosso Hino Nacional

Entreatos: Luz Sobre um Personagem Fascinante

Utopia de Cinema

Bilhete a José Wilker, Senhor do Destino

Os Dourados e Rebeldes Anos de Gilberto Braga

Saudade de Tantos Carnavais

O Show dos ASPONES

Vinte e Um Anos sem Janete Clair

As Filigranas da Interpretação de Matheus Nachtergaele

Para Ser Mais Forte Amanhã

Alguma coisa Acontece Quando Ouço Wisnik

Consagração de Um Mestre das Novelas

Lea Garcia: Como a Luz no Coração

De Como Euclides da Cunha Encantou as Noites Cariocas

É Preciso Falar de Flores

As Marias que Somos Todas Nós

A Escura Alma dos Homens sem Afeto

A Crítica Refinada e Acerba de Gilberto Braga

A Escritura Divina de Bressane

Gil, O Ministro Nota 10!

Os Jangadeiros de Caffé

Só Sei Que É Preciso Paixão

Tanto Sentimento

O Cinema Brasileiro é um Cafundó!

Céu de Evidência Solar Denuncia Desamor

Louvando o que bem merece, deixo o que é ruim de lado...

O ano em que nossos pais precisam ir ao Cinema

Para Não Desbotar da Memória das Nossas Novas Gerações

Passeio Feliz pelas Entranhas da Cearensidade

Vídeos Ambientais e Muita Beleza Incluem Caparaó no Circuito Audiovisual Brasileiro

Vídeos Ambientais e Muita Beleza Incluem Caparaó no Circuito Audiovisual Brasileiro

Jóia da Arquitetura de São Luís Festeja Rosamaria Murtinho e Vinícius de Oliveira

Argentina, Muito Superior, ainda que derrotada

Se Você Crê em Deus, Erga as Mãos para o Céu e Agradeça...

Irma Vap - Porque Teatro e Cinema Bebem na Mesma Fonte

Aplausos Cearenses em Gramado

Como Deixar uma Nação Emocionada

Ecos de Gramado e Mais Luzes para o Cinema Nacional

Dia do Repórter Internacional

As Incansáveis Bobagens de Lobão

Fábio Assunção: Qualquer Coisa Além da Beleza

Pra que a Alegria Vire Moda

Porque Gilberto Gil Incomoda

A Propósito de Cidade Baixa

A Emoção e a Glória de Ser Boca

Lennon: Um Feminista Cada Vez Mais Necessário!

De Olhos Marejados com a Delicadeza

O Festival de Cinema Mais Caloroso do Brasil

Só a Arte Produz a Paz

Artur da Távola, Exemplo e Saudade

Último Aplauso a Uma Atriz Singular

Beatriz Alcântara
Dimas Macedo (ensaios & poesias)
Eduardo Campos
Eduardo Diatahy de Menezes (ensaios)
Estrigas (ensaios)
Gerardo Mello Mourão (vinhos)
João Gonçalves Filho, Bosco (ensaios)
João Soares Neto (ensaios)
José Alcides Pinto (ensaios e poesias)
José Feliciano de Carvalho (ensaios)
L. G. Miranda Leão (cinema)

Fala Costa-Gavras Sobre Temas & Filmes

O Abandono da África pelo Ocidente em Filme Devastador

De Olhos Vendados sob o Signo do Medo

Terra dos Mortos - Retorno dos Zumbis como Personificação do Inverossímil

Da "Ilha" Distópica à Fuga Impossível de Dois Clones

Dogville, de von Trier, e Alguns Reparos

Teoria do Autor - Questões de Idiossincrasias e Estilo

Alexandre Astruc e a Teoria do Autor

Conspiração entre Clichês e Acertos de Pollack

Sam Peckinpah - A Estética da Violência no Cinema

A Queda - Representação da Realidade via Filme Exponencial

Cinema Perde Mestre do "Thriller": Jacques Deray

Denúncia da Omissão Injustificável: "Amém", de Costa-Gavras

Freud Redivivo em Comédia Espanhola Satírica e Picante

"Morangos Silvestres", de Ingmar Bergman

Como Cineastas e Críticos Vêem Bergman

Quem é Konstantin Costa-Gavras

Reflexões de Truffaut Sobre Seu 18º Filme

TV Exibe o Inédito "O Quarto Verde", De Truffaut

Quem é Yves Boisset

Tributo a Jean Moulin na TV

Quem É Clint Eastwood

A Desmi(S)tificação do Cinema em Obra Exemplar de Truffaut

Sai de Cena Outro Cineasta de Escol: John Schlesinger

TV a Cabo Repassa a Galeria Kirk Douglas

De Bergman: Um Filme Raro

Filme Polêmico Vale por Algumas Cenas Memoráveis

Mágicas... e o cinema?

De Novo, Drogas & Cia...

Mundo Cão País Afora

Painel realista sob o olhar de Monique

Fina comédia surrealista

De volta ao ponto de partida e sem solução

Final Pífio no Jogo Inteligente de Falsas Aparências

Fantasia Delirante de Mistério, Terror e Crueldade

Filme Noir Cresce com Imagens de Impacto

Amor Impossível Traduzido em Belas Imagens

Arbítrio e Violência de Uma Guerra sem Fim

Conflito de Paralelismos na Saga dos Imigrantes

Desaparecemos na poeira do tempo, como os sonhos esquecidos...

"L’Avventura" - Marco da Tetralogia de Antonioni

Missão Inverossímil e Inacreditável se Autodestrói em 125min

Recriação Exemplar de Assalto com Fecho Surpreendente

Amargos ressábios colidem no drama humano de todo dia

Caretas e Ironias de Situação em Comédia Hilariante

Co-produção Espanha-Cuba-França Surpreende

Apreciando 30 Anos Esta Noite

Imagens da Violência: O Homem como Lobo do Homem

Louis Malle, Mestre do Documentário e do Filme Adulto

Orson Welles 90 Anos

Suspense e Terror Resultam em Bom Thriller Político

Fantasmagoria pífia...

Terrorismo Urbano Faz Reviver Fantasmas do Passado

Pádua Lopes (Os Sertões)
Paulo Quezado (direito)
Paulo Tadeu Oliveira (ensaios)
Ricardo Bacelar
Sérgia Miranda (letras jurídicas)
Ubiratan Aguiar (ensaios & poesias)

:: Escolha:

Revista Oboé

Informe Oboé

Dicionários Oboé