Que Gilberto Braga tem uma competência fora do comum para trabalhar dramaturgicamente as emoções, eu já sabia. Acompanho sua trajetória como novelista há anos e foi justamente por esta maestria que me tornei sua fã. Até já escrevi sobre isto neste espaço mas dada a enorme qualidade do último capítulo de Celebridade, volto a tratar do assunto pois creio que todo o esforço dispendido durante meses por toda a equipe da novela merece ser aplaudido. Ainda mais, porque Celebridade deixa uma incomôda saudade. Será preciso muita competência para chegar perto do êxito que foi esta novela de Gilberto, em todos os aspectos. Suplantar a qualidade da novela, é coisa na qual não creio. E dificilmente alguma novela vai se igualar a Celebridade, esta jóia rara da teledramaturgia nacional. Porque em Celebridade havia de tudo, menos incompetência. Nenhum ator de quem possa se dizer: "Este não convence", "Esta não sabe passar o recado". Mesmo os quase estreantes e as crianças, ninguém desafinou. E quero dedicar este texto para falar especificamente do capítulo final de Celebridade, esta peça teledramatúrgica que as novas tecnologias felizmente não deixarão o tempo destruir.
É incrível a capacidade de Gilberto Braga de criar situações que prendem a atenção do telespectador. Formidável a maestria do escritor em forjar cenas capazes de mexer com a emoção e a sensibilidade de quem acompanha suas tramas. Foi assim em "Escrava Isaura" (daí o êxito mundial da novela), "Dancing Days", "Água Viva", entre outras, e nas minisséries "Anos Dourados", "Anos Rebeldes" e "Labirinto". Agora ele trabalha com uma equipe maior, formada quase inteiramente por mulheres, à exceção de Sérgio Marques, há tempos um colaborador do mais alto quilate. Uma dessas, Leonor Bassères, faleceu há cerca de 4 meses e pra ela foi dedicada à novela, conforme mostrado no último capítulo. E foram tantas as coisas boas desse último capítulo que espero não me esquecer de falar de nenhuma delas.
Primeiro, o desvendar da morte de Lineu Vasconcelos, personagem de Hugo Carvana, suspense levado em extremo sigilo até o momento de ir ao ar. E com uma extremada capacidade de criar conflitos e armar situações de suspense, Gilberto Braga acabou fazendo da grande vilã da história, a perversa Laura, a quem Cláudia Abreu compôs com irretocável competência. E conforme avisou em entrevistas às vésperas do término da novela, essa teria um final moralista "porque chega de ver tanta coisa ruim na vida real". Gilberto quis mostrar que os maus merecem punição e que isso é possível, ao menos na ficção, e justamente recomendável.
O ápice do capítulo, a cena em que num mesmo cenário estão Laura, Marcos (Márcio Garcia), Renato (Fábio Assunção), Fernando (Marcos Palmeira) e a pequena Nina (na trama, a filha de Maria Clara e Fernando), foi um show de emoção teledramatúrgica. Gilberto levou até as últimas conseqüências, mostrou o mais cruamente possível, o mal se corrompendo e se destruindo por si mesmo. Um estrondo de cena com filigranas acionadas no último volume, tensão cativando o espectador para um desfecho, não moralista, mas um desfecho onde o autor registrou com caligrafia de refinado desenho sua concepção de mundo, os valores nos quais acredita, as coisas pelas quais vale a pena se lutar.
Gilberto Braga com sua "despretensiosa trama novelesca" usou as armas que têm ao alcance com a maior destreza para escancarar um lado vil do ser humano que ele execra e com extrema sensibilidade fez o público embarcar junto, criando um carrossel de cenas onde os conflitos emocionais foram de tal modo expostos na vitrine da tela de cada um, com tão criteriosa teia emocional, que a novela conseguiu mostrar o vilão com a mesma capacidade com que criou tipos memoráveis, bons, simpáticos, ingênuos, engraçados. Assim, se de um lado tínhamos toda a vilania espúria de uma Laura (ao final, pronta para matar a pequena Nina), o vilão medroso do Marcos e o mau-caráter inescrupuloso do Renato Mendes, por outro tínhamos a nos embevecer a doçura de Noêmia, a simpatia de Palmira, a alegria de Eliete, os trejeitos de Nelito; enquanto Ana Paula armava ciladas para a própria irmã ou a rival e Joel seguia os passos da maldade arquitetada por Renato, noutro extremo Inácio (Bruno Gagliasso revelando-se um ator pronto para maiores vôos) transmitia aquela ternura que a gente quer tanto encontrar na convivência cotidiana, Vitória fazia a repórter honesta a viver tentando escapar de situações constrangedoras, Wladimir mostrava-se o bom moço que enfrenta dificuldades por seu jeito pouco ambicioso, e Darlene era o retrato de uma parcela da sociedade que anda meio perdida, correndo sabe-se lá como em busca de virar "celebridade".
Pois tudo isso teve sua devida paga nesse estupendo capítulo final de Celebridade, onde os mitos que constituem toda forma dramática estiveram presentes em toda sua amplitude, daí a força empática da novela, sublinhados pelos casamentos de Darlene e Noêmia, uma jóia para o coração, a celebração de um amor tão aguardado - Inácio e Sandra -, o reconhecimento ao talento de Vitória - Deborah Lamm cativando com seu talento e simpatia nata -, a confirmação da competência do bombeiro Wladimir, enfim, a novela mostrou com talento e singular espontaneidade o que pensa seu autor a respeito de temas tão complexos e polêmicos como os que ele criou para entreter os telespectadores por oito (bem escritos) meses.
Ao colocar na cena final do último capítulo a vitória do Bem sobre o Mal, os vilões punidos e os bons felizes a celebrar a Paz na voz e na canção de Gilberto Gil, o autor não só mostrou que assim é que deve ser na vida real como escolheu de forma irretocável a música e o cantor para transmitir este recado com a mais fina pérola da celebração da Paz, tão necessária, e da Cultura Brasileira. Ao colocar um de nossos melhores artistas no palco do requintado Espaço FAMA (aplaudido por toda a equipe técnica da novela que compunha naquele momento o público do lugar), sendo este Artista o Ministro da Cultura em cujas palavras e ações elegeu a Diversidade Cultural como prioridade, Gilberto Braga pregou no ar sua mais nobre bandeira: o mundo precisa de Paz, Amor, Ética. O mundo precisa de Gente Honesta vencendo. O mundo quer os bons no comando e os bons precisam da Paz para varrer do mundo a opressão e todos juntos, de mãos dadas, vamos construir com o respeito à Paz, à Igualdade Social, a Diversidade Cultural, o Amor e a Honestidade o mundo que será MELHOR para todos nós. Fora os bandidos, os sem-caráter, os inescrupulosos, os que querem a fama a qualquer preço, os que não medem esforços para ter e aparecer nem tem medidas para lutar pel oque querem. Abaixo a falsidade, a mentira, a desonestidade. O mundo que nós queremos tem sede de Justiça, Decência, Amor, Lealdade, Fraternidade, Solidariedade. Foi isso que Gilberto Braga nos disse o tempo inteiro com Celebridade. E tudo isso foi traduzido com magistral eloqüência na fala do personagem de Marcelo Faria, o bombeiro, na inusitada cena em que, de repente, Wladimir começa a dizer um texto que mais parecia saído da boca de Darlene, a tresloucada garota que fez de tudo para ser famosa. Ao usar trejeitos e expressões comumente usados por Nelito e Darlene, e se mostrar interessadíssimo em 'aparecer na mídia', artifício sempre condenado pelo personagem, o autor mais uma vez surpreendeu o público, quando o bombeiro arrematou sua fala com um recadinho todo especial: "Eu vou fazer de tudo para aparecer na mídia, demais, para encher o saco de todo mundo. Assim, quando eu aparecer em algum lugar, o pessoal vai dizer "Lá vem aquele chato..." e só assim eu vou ficar livre dessa perseguição de autógrafos, imprensa e fotógrafos. Só assim eu vou conseguir o anonimato que eu tanto aprecio".
Gilberto Braga, Saravá! Obrigada por ter construído uma trama tão bem arquitetada, por ter feito tantos mil espectadores em todo o país ouvirem sua mensagem tão pungente, séria, importante. Celebridade foi uma novela incomum num cenário tão deficitário de valores civilizatórios como agora estamos vivenciando. Gilberto Braga conduziu esta trama com mãos de Mestre e nos deu, a mim e a seu enorme público, muitos momentos de extrema satisfação ao acompanhar trabalho tão criterioso de equipe extremamente afinada e competente - entre técnicos e elenco -, responsável pelo êxito de Celebridade.
CELEBRIDADE deixa saudades, muitas saudades e se inscreve entre as novelas brasileiras de melhor construção dramatúrgica de todos os tempos. PARABÉNS a Gilberto Braga, seus colaboradores, Dênis Carvalho e a equipe de direção, aos figurinistas, maquiladores, iluminadores, a todos que tornaram possível a novela especial que acompanhamos com ardor e emoção diferente a cada capítulo. Parabéns, sobretudo, a este elenco supimpa onde brilharam Fábio Assunção, Cláudia Abreu, Malu Mader, Bruno Gagliasso, Déborah Evelyn, Joanna Limaverde, Marcos Garcia, Júlia Lemmertz, Alexandre Borges, Deborah Secco, Taumaturgo Ferreira, Daniel Dantas e Isabela Garcia, entre tantos outros de destacado talento.
Agora é esperar a próxima e torcer pra que Gilberto Braga não se ausente tanto tempo do ofício que exerce com tanta maestria.
Arthur Eduardo Benevides
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