Estarrecidos. Ficam assim as pessoas do Bem ao saberem de notícias escrabosas como as que vimos assistindo com certa freqüência, há alguns anos, nos noticiários cotidianos. É filho matando pai, filha planejando com o namorado a morte da mãe, crimes por causa de um tênis, uma avó sendo morta em troca de dinheiro pra comprar tóxico.... Esta violência das grandes cidades assusta e amedronta cotidianamente.
E enquanto a maioria se pergunta o porquê, a primeira idéia que me vêm é a de está faltando ARTE na vida dos adolescentes brasileiros. Como de resto, está faltando ARTE no país.
Quando você se depara com qualquer cena bárbara, carregada dos muitos símbolos contidos na engrenagem de uma grande cidade, pode ter certeza: a ARTE está sendo me-nos-pre-za-da. E estamos já no século XXI... Era tão outra a noção de civilidade que queríamos para o país... Nada beira mais a bárbarie que a ausência de ARTE na vida das pessoas. E o mundo gerado a partir da globalização é este mundo da violência, do descaso com a infância e a velhice, do despreparo da juventude, da falta de diálogo pais e filhos, dos desencontros amorosos, da competição desmedida e sem ética, da falta de sólidos valores morais, da valorização excessiva dos bens materiais, da falta do ensino da Arte e do trabalho de redimensionamento da sensibilidade.
Falo em Arte porque acredito nela como o melhor caminho para garantir o desenvolvimento salutar da Humanidade. Como atriz, há alguns anos também ensinando Teatro, penso antes de tudo em como carece de ensino de Teatro este país. Já imaginaram se as pessoas se dessem conta de que está no Teatro uma das maiores fontes de fortalecimento da auto-estima e do ensino de noções fundamentais de solidariedade, espírito de coletividade e disciplina, e, conseqüentemente, de valorização do Outro como diferença necessária e enriquecedora, o quão diferente seria a vida considerada como 'normal' hoje em dia ? Quantos de vocês já pararam pra pensar em como são poucas as escolas de Teatro no Ceará ? Por outro lado, em quase toda esquina há uma academia de karatê, judô, jiu-jitsu, musculação... Ou seja, a preocupação com a forma física virou compromisso obrigatório. É quase uma epidemia. Para a exceção, são poucas as opções.
Entre as muitas coisas que aprendi em aulas e conversas com Aderbal Freire-filho, nosso querido conterrâneo, talento excepcional do Teatro (este ano, premiado mais uma vez como Melhor Diretor, na edição carioca do Prêmio Shell ), ele afirmava, sábio: " O nível de violência cresce assustadoramente na medida em que decresce o número de exibições artísticas públicas...No Brasil, há tanta violência porque há pouco espaço para a produção artística, porque as pessoas não alimentam seu espírito..."
Felizmente hoje vivemos num país onde o Ministério da Cultura pensa com seriedade a questão cultural. E são diversas as ações implementadas visando a efetivação de uma Política Cultural séria, competente, abrangente e não discriminatória para este país, para nossas cidades e Estados. Afinal nosso Ministro da Cultura norteia sua gestão por um oportuno Estatuto da Diversidade Cultural e dentro em breve vai levar ao Congresso Nacional a proposta de implantação do Sistema Nacional de Política Cultural, o qual, se aprovado, como nós torcemos, virá trazer grandes e salutares mudanças ao panorama geral da Cultura em nosso país. Com Gilberto Gil, portanto, caminhamos na estrada certa. Porque não é possível continuar vivendo num país onde quem tem poder pensa em tudo - até em diminuir a violência - mas nunca pensaram em efetivar um espaço conseqüente, honesto e permanente para a difusão e fomento da produção artística. E olhe que somos um dos povos mais ricos do mundo, cultural e artisticamente falando. A nossa música é a mais bela e rica; nossos artistas, das mais variadas áreas, estéticas, tendências e matizes, são ótimos - alguns geniais como Fernanda Montenegro (que desbancou todas as concorrentes ao Oscar no ano que concorria; naquela noite, somente ela era uma Atriz), a saudosa Lélia Abramo, o multifário Chico Buarque e o cineasta Wálter Salles (!). Mas até então inexistia no país, em todos os lugares, de forma contínua, permanente e decisiva, uma Política Cultural para balizar as ações dos órgãos competentes. Felizmente, este quadro vem mudando
Já pensaram se toda semana, em algum ponto desta cidade, assim como em diversos pontos de todas as cidades deste país, houvesse um grande concerto de música ao ar livre, um grande espetáculo público de Teatro, uma coreografia mostrada a céu aberto, uma grande mostra de Artes Plásticas em praça pública e o povo se aglomerando para assistir ao espetáculo ? Já pensaram se em vez de jogo de futebol, PAGO, houvesse toda semana uma aula pública de Teatro, de Circo, uma tarde de Contação de Histórias, uma enorme Roda de Poesia, DE GRAÇA, com ampla divulgação nos meios de comunicação, a cada vez com novos protagonistas em cena ? Era ou não era diferente a forma de ser civilizado no Brasil ?
Arthur Eduardo Benevides
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