Quando se diz que Rachel de Queiroz foi uma das maiores escritoras do Brasil, a ponto de ser a primeira mulher a ingressar, triunfalmente, na nobre e vetusta Academia Brasileira de Letras, duas cousas devem ser destacadas: a excelência de sua obra como prosadora inimitável e a dignidade com que atuou, nos parâmetros culturais, em prol do desenvolvimento de nossa Literatura.
Simples, amiga, fraterna, cheia de sonhos e ideais dignificantes, amou como ninguém a terra em que nasceu, projetando-a brilhantemente no respeito de todos os intelectuais brasileiros.
Com Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, Jorge Amado, José Américo de Almeida, Amando Fontes e outros, foi uma das criadoras, na fase madura do modernismo, do Romance do Nordeste, explorando tematicamente a vida, os costumes, as lutas, o sofrimento, a bravura e o heroísmo do povo nordestino, notadamente do cearense, valorizando, assim, o regionalismo, sem esquecer o espírito crítico em relação à sociedade brasileira.
Nunca esqueceu o sertão, pois nasceu no interior do Ceará, fazendo precocemente, mal saída da juventude, a publicação do seu primeiro romance - O Quinze, que teria repercussão nacional, de que é prova, aliás, o Prêmio da Fundação Graça Aranha.
Publicou muitos livros: As Três Marias, João Miguel, Caminho de Pedras, Dôra Doralina e Memorial de Maria Moura, incursionando pelo teatro (Lampião e A Beata Maria do Egito), pela crônica (A Donzela e a moura torta, O Brasileiro perplexo, O caçador de tatu e As menininhas) não esquecendo a Literatura Infantil (O Menino Mágico), além de outros trabalhos.
Eleita em 1978 para a ABL, fez parte também do Conselho Federal de Cultura e representou o Brasil, em 1966, na Assembléia Geral das Nações Unidas.
Guardava, contudo, e com razão, a mágoa de não haver sido eleita para a Academia Cearense de Letras, por existir um artigo no Regimento da instituição que vedava o ingresso de autores não residentes no Ceará. E ela morava no Rio.
Logo que fui eleito presidente, há onze anos, Demócrito Rocha, diretor do jornal O Povo, pediu-me que a elegesse. Uma cousa justa. Justíssima. E o que fiz, então? Reuni os membros da Academia em assembléia geral e apresentei o seguinte parágrafo, aprovado por todos: "O disposto no presente artigo não se aplica aos membros da Academia Brasileira de Letras." Com isso, na primeira vaga que houve, infelizmente a de Moreira Campos, ela foi eleita, por unanimidade de votos, sendo a sua posse um verdadeiro acontecimento cultural. E nunca esqueceu o que fiz. Sempre que podia, agradecia-me, com discretos elogios.
Hoje, lembro esse fato com grande saudade. Se nada houvesse feito pela Academia, creio que isso teria sido o bastante. E glórias sejam dadas à inapagável memória de Rachel, uma das maiores ficcionistas do Brasil.
Arthur Eduardo Benevides
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